14 outubro, 2015

A PONTE É UMA PASSAGEM

Ilya Repin, Sobre uma ponte em Abramtsevo | 1879

Tive uma fase, no século passado, em que li bastante Michel Tournier. Um dos contos de que mais gostei foi Amandina ou os Dois Jardins, história iniciática em que uma menina de 10 anos, ao seguir a sua gata grávida, transpõe pela primeira vez o muro que separa um bosque selvagem e misterioso, feito de árvores caídas, silvados, fetos altos e de flores de cujo cheiro não sabe se gosta, do bem cuidado e ordenado jardim da sua casa cuja sala cheira a cera. É nesse dia que descobre a menstruação, associando o misterioso bosque ao mistério do corpo e da gravidez.

Esta mulher que aqui vemos não tem 10 anos e a sua menarca já vai longe. Mas os seus passos na direcção da floresta cerrada, densa, protegida da luz do sol e dos olhares mundanos, lembra a ascensão de Amandina a um mundo novo, bem mais ancestral do que o mundo por ela conhecido em Moscovo. É quase certo que não se dirige para um qualquer lugar em especial. Talvez procure apenas um caminho que não leve a lado nenhum. Não para fugir do que quer que seja mas para uma pequena evasão, um temporário recolhimento, uma reconfortante solidão ocasional. Provavelmente precisa só de pensar, de tomar decisões. Por isso caminha elegante para a floresta como se fosse para um chá, uma lição de piano ou deitar-se na sua cama para contemplar o tecto branco que uma noite de insónias transformou em oráculo. Vai mas para logo voltar quando já não for preciso estar ali. A floresta não é o seu mundo burguês, ordenado, cheirando a cera como a sala de Amandina. Não é um Rousseau, um Thoreau ou Wittgenstein em busca de eu submergido nas águas das aparências sociais, de uma vida autêntica ou para resolver problemas filosóficos. 

Mas, entretanto, parou. O que a terá feito parar? O medo da floresta, de um mundo cheio de surpresas, de sons e cheiros bem distantes daqueles que povoam a sua rotina burguesa? Não sabia a pequena Amandina se as flores do bosque cheiravam bem, mal ou as duas coisas ao mesmo tempo. Ou seja, não é fácil aceitar um aroma agradável mas ao mesmo tempo selvagem, desconhecido, talvez ameaçador. Terá esta mulher sentido esse cheiro ancestral e primitivo, tão diferente dos seus frasquinhos burgueses, ficando assustada com isso? Ou terá sido a ponte? A ponte, na verdade, parece frágil. Tem dois buracos, um, que ela já passou, o outro quase no final. Ela não sabe o que fazer. Hesita. Tanto pode ter medo de cair na ponte como de entrar num território pouco acolhedor o qual começa nessa mesma ponte. 

Não sabe, pois não passa de uma personagem saída da imaginação de um pintor. Ela vê a ponte, pisa a ponte, tendo apenas a consciência de que se trata de uma velha e degradada ponte. Mas o pintor sabe bem que se trata de muito mais do que isso. O pintor vê naquela ponte o princípio de uma existência que pode começar nos pensamentos e sentimentos que irão emergir naquela floresta. Esta mulher, no fundo, é como todos os seres humanos: pouco sabe. Vêem apenas a superfície das coisas, causalidades limitadas, cadeias de relações que valem tanto como a espuma do mar que se forma e desfaz rapidamente na areia. É uma marioneta que vê na sua vida apenas o que tem à frente do nariz. La no fundo somos todos assim, não é verdade? Toda a gente vê o presente mas ninguém vê o futuro. Mas o pintor sabe. O olhar do pintor é o olhar omnisciente de Deus a pensar o que nós, presos nas redes da finitude, não vemos um palmo à frente dos olhos. Onde a mulher vê uma ponte velha ou uma floresta que poderá ser o início de uma nova cadeia causal, vê o pintor as imagens futuras que a mulher gostaria de poder ter visto no tecto branco do quarto. Há, por isso, aqui, duas pontes. A ponte física, de madeira, velha, gasta, frágil. Mas há a ponte que é só do pintor, a ponte que o pintor quis pintar, onde se vê, não com os olhos mas com o espírito, com a imaginação criadora, o destino de uma mulher que atravessa uma ponte de madeira, velha, gasta e frágil. Não a ponte funcional, útil, usada pelas pessoas para irem de uma parte para outra mas uma ponte com um sentido próprio e possuindo metaforicamente a sua própria consistência.

Infelizmente, nem sempre é possível, como pretendia Oscar Wilde, a vida imitar a arte. Fôssemos nós os criadores da nossa própria vida, os pintores das nossas próprias telas, e saberíamos, ao contrário daquela mulher, o que fazer. Esta, sendo feita de óleo, não é digna de compaixão. Fosse ela de carne e osso e o significado daquela ponte seria bem mais dramático. Tão dramático como o de tantas outras pontes que foram atravessadas ou tão dramático como o de tantas outras pontes que ficaram por atravessar.