06 outubro, 2015

A MULHER DO CARPINTEIRO


Esta pintura de Rembrandt tem dois títulos. O principal é "A Sagrada Família com Santa Ana", mas é também conhecida por "O Ofício do Carpinteiro". O suficiente para passarmos a ter dois quadros distintos em vez de um só, uma vez que ver o quadro tendo como referência o primeiro título não é o mesmo do que o ver a pensarmos no segundo. Uma duplicidade que mostra bem como podem as palavras condicionar o sentido e a compreensão das coisas. Haverá quem prefira o primeiro título, eu prefiro o segundo. 

O seu centro de gravidade está, sem dúvida, na mulher que amamenta o menino. É para lá que os nossos olhos se dirigem, sugados por toda aquela quente e resplandecente luz amarela. Saber, pelo título, que se trata da mãe de Jesus, amamentando o seu filho, filho de um deus, ele mesmo também um deus, como não se cansaram de nos mostrar os Padres da Igreja e os grandes teólogos medievais, coloca o espectador em pleno território sagrado, induzindo nele um enaltecimento religioso.

Mas se passar a ser simplesmente "O Ofício do Carpinteiro", o dito carpinteiro, cujo rosto nem sequer vemos e que se encontra numa posição secundária, conquista o centro do quadro, ainda que um centro não geográfico ou visual. O que Rembrandt, neste caso, nos estaria a mostrar, seria apenas uma simples cena da vida quotidiana na oficina de um carpinteiro. Um carpinteiro que trabalha enquanto a mulher amamenta o seu filho, tendo o apoio da mãe ou da sogra. Assim sendo, já não se trataria de provocar um enaltecimento religioso mas um enaltecimento profano, provando-se que ver, apreciar e amar esta pintura pode dispensar um pretexto religioso. Ou melhor, a beleza, tranquilidade e dignidade de uma mãe que amamenta o filho não carece de um pretexto religioso, basta-se a si mesma. É uma mulher e uma criança e basta, do mesmo modo que o carpinteiro não precisa de ser S. José para adquirir uma virtude doméstica, trabalhando na sua oficina para sustentar a família. É por isso que Malraux dizia que a Holanda (a sua pintura) não inventou a colocação de um peixe no prato. Só já não faz é do peixe um alimento dos apóstolos para ser depois venerado pelo espectador religioso, como acontece na pintura de temática religiosa.

Quando eu digo que a morte da religião está muito longe de representar a morte do sagrado, da beleza, da interioridade, da espiritualidade, da humanidade, é dos interiores holandeses que penso. Mais bonito do que ver Maria, mãe de Jesus, a amamentar, será ver uma mulher a amamentar. O mais belo e sagrado animal do universo, ainda que se trate da pobre e humilde mulher de um carpinteiro cujas laboriosas mãos permitem a serenidade doméstica da cena nesta oficina. O sagrado do profano em todo o seu esplendor.