27 outubro, 2015

A MÃO E O ESPÍRITO

Albert Anker | A Pequena Descascadora de Batatas, 1886

Quando era jovem, o meu ideal de vida doméstica era estar sentado a ler um livro, a ouvir música ou a ver um filme no 2ºcanal. E imaginava a minha velhice frente a uma lareira, a ler Proust, uma mantinha no joelho e um gato ao meu colo a dormitar. Claro que o facto de ter mulher a dias e uma mãe doméstica, alimentava facilmente esta minha bela alma. Anos e anos sem saber o que era fazer uma cama, lavar a loiça, passar a ferro, aspirar, limpar, cozinhar e outros pesadelos que atormentam os adolescentes só de os imaginar. Por milagre, a comida aparecia feita no prato, a roupa lavada e passada, a casa limpa e, a partir daqui, eu só tinha mesmo de me dedicar às actividades mais etéreas da existência.

Anos mais tarde, as circunstâncias da vida levaram-me a ter de desempenhar tarefas domésticas. Mas fazia-o por obrigação, mero sentido de dever. Uma chatice pegada mas que tinha de ser feita, como ir ao dentista ou às Finanças. Sabia que lavar, estender e apanhar roupa, descascar batatas ou arrumar a cozinha, me exilava dos livros, sentindo isso como uma alienação, tanto no sentido da etimologia latina (ser um outro) como da etimologia alemã (tornar-me estrangeiro) mas não tinha como escapar a sujar as mãos no mundo real para me poder alimentar a sério em vez de apenas viver para alimentar a descoberta de etimologias latinas e alemãs.

Hoje, em que estaria a caminhar a passos largos para a velhice que imaginava, tudo mudou. A idade tira-nos coisas mas dá-nos outras. E qual manta, qual lareira, qual gato, qual carapuça. Uma das coisas que vim a descobrir é aquilo a que vou chamar uma poética da vida doméstica. Uma doméstica descoberta do mundo, dos gestos, do poder da mão sobre as coisas e sobre mim próprio, tornando-me já não num Senhor que se forçou a ser Escravo para se alienar, mas num Senhor que quis ser Escravo para, conquistando o mundo, se conquistar a si próprio. 

Sobretudo na cozinha. A cozinha, outrora, um espaço bárbaro e inóspito, tornou-se uma oficina onde o prazer de manusear as coisas do mundo comestível rivaliza com o prazer de manusear os livros. Manusear um produto não é apenas tocá-lo. É conhecê-lo, ganhar a sua intimidade, tirar o melhor partido dele, tal como se pode fazer em relação a uma pessoa, seja por ele próprio, seja para o misturar com outros, dando origem a novas formas, novas cores, novos sabores. E fazê-lo, pensando apenas nisso, reduzindo o mundo à sua chã simplicidade, à matéria pura e dura, orgânica, metamorfoseada, graças a uma química milenar que nos tornou humanos antes de qualquer arte, religião ou filosofia. No fundo, uma espécie de Graça por poder viver a beleza, harmonia e silêncio da pintura holandesa no interior da nossa própria cozinha, longe, muito longe do drama da Luísa, sobe, sobe a calçada/bebeu a sopa numa golada/lavou a loiça/varreu a escada/deu jeito à casa/desarranjada.

Não é uma chatice mas uma enorme Graça poder ver nascer uma bela sopa de legumes, dissecar uma romã, como ainda hoje aconteceu, sentindo as suas sementes vermelhas a libertarem-se para o fundo da tigela. Ou partir feijão verde, arranjar um molho de nabiças, espinafres, agriões ou de grelos comprados às senhoras no mercado em vez de os comprar já arranjados e lavados em sacos de plástico no supermercado num processo onde a mão se anula. No mercado, a mão que apanhou os espinafres passa-os para a mão que os irá arranjar na cozinha. No supermercado, porém, o produto que foi recolhido numa prateleira vai directamente para uma panela. Sem toque, sem pele, sem mão, sem palavra, sem vida. Apenas função. E quem diz cozinhar, diz também sentir o prazer de ver a casa passar da sujidade à limpeza, do pó ao brilho. Claro que é bom entrar numa casa a cheirar a limpo, ainda que não tenhamos sido nós a limpar. Mas entrar numa casa limpa pela nossa própria mão dá outro prazer. Já não se trata apenas de uma casa onde vivo. É um cosmos cujo artífice sou eu. Que a organizo, torno habitável, um espaço tanto para estar, como para me sentar à mesa com a comida que eu próprio faço, como para dormir na cama que eu tornei limpa e fresca, depois de desfeita e refeita. Ler um bom livro, ver um bom filme ou ouvir uma boa música será sempre, depois disso, também um regresso a mim mesmo mas com todo um mundo agarrado às palmas das minhas mãos.