07 outubro, 2015

4.264.152


Os 4.065.288 de eleitores que no domingo não foram votar, mais os 112.293 que votaram em branco, mais os 86.571 que votaram nulo, fora os muitos outros que, por fastio ou protesto, votaram no partido A ou B, fizeram-me lembrar esta fotografia das primeiras eleições em democracia, um retrato do que nesse dia se passou um pouco por todo o país. O que aconteceu para chegarmos a esta esmagadora indiferença perante o acto eleitoral e as propostas dos diferentes partidos? Terão as pessoas deixado de acreditar na democracia? Não, as pessoas continuam a acreditar que a democracia é o melhor de todos os regimes. O que aconteceu com estes eleitores de há quase 40 anos foi o facto de ainda acreditarem que o seu voto poderia ter um efeito mágico nas suas vidas. A democracia era uma novidade e ter um boletim de voto na mão dava uma sensação de poder, acreditando que ganhar o partido A em vez do partido B ou C seria determinante para o futuro do país e das suas vidas. O que já não acontece actualmente.

A democracia é pouco mais do que a mera possibilidade de uma parte de um todo poder decidir quem vai governar esse todo. Sim, mas o que tem isso de especialmente excitante? No fundo, tal como numa ditadura, haverá sempre uma parte a ser governada por alguém que foi apenas desejado por outra parte, que pode ser menor. Significa isto que uma maioria está a ser governada por alguém que não deseja, uma esmagadora maioria cuja vontade é contrariada e não se reconhece nos seus governantes. Mas a vida continua e ninguém se suicida por causa disso ou acredita que é mais feliz ou infeliz por causa disso. Claro que quem vota no partido A acredita que o país irá estar melhor governado por ele, acreditando os que votam no partido B que irá ficar pior. Mas sem grandes dramatismos, percebendo-se que não é isso que verdadeiramente conta no que mais conta nas vidas das pessoas. Quem vota no partido que ganha não acredita que vai ser mais feliz por causa disso e quem vota no partido que perde não acredita que vai ser mais infeliz. A política e o país são o que são, mas a vida, a verdadeira vida, o que faz verdadeiramente rir ou chorar, o que faz verdadeiramente a felicidade ou infelicidade, passa ao lado de alternâncias governativas, do carácter filosófico-constitucional de cada regime. As pessoas da fotografia acreditaram que aquele dia era um dos mais importantes das suas vidas, daí o sacrifício da espera naquela enorme fila. No dia 4 de Outubro, verdadeiramente importante foi o jogo do Benfica ter sido adiado.