03 setembro, 2015

WEB SIDE STORY

Elliot Erwitt

Eu sou um daqueles pobres de espírito para quem a Economia não passa de uma ciência esotérica na mesma linha da Cabala, da Teosofia ou dos debates futebolísticos de 2ª feira à noite. Uma das coisas que na enigmática vida económica mais centrifugam o meu juízo é a ideia de "mercados" com os seus estados de alma. Se Shakespeare, no século XVI, criou "O Mercador de Veneza", o século XX, por sua vez, criou os "mercados". Não se trata de uma personagem literária, longe disso, mas não deixa de ser engraçado terem em comum sentimentos e emoções, ainda que, no caso dos segundos, sem um rosto e uma identidade pessoal. Os "mercados", seja motivado por um espirro de Obama, uma vitória do Syriza ou uma gargalhada da senhora Merkel, tal como uma personagem de Shakespeare, entusiasmam-se, inibem-se, ficam ansiosos, desconfiados, retraídos, confiantes, calmos, tranquilos, desesperados. Como nunca ninguém os viu, esta antropomorfização dos mercados acaba por denunciar uma sincrética e pré-racional disposição de natureza animista que escapa por completo a quem, como eu, pobre ingénuo, ainda aprecia (vá-se lá saber porquê) uma abordagem racional dos fenómenos sociais. 

Ora, se o século XX criou os "mercados", o século XXI criou as "redes sociais". No fundo, ninguém sabe muito quem são mas apresentam-se à sociedade com a mesma gravitas psicológica das mais exemplares personagens do bardo inglês ou dos liberais "mercados" que também ninguém sabe muito bem quem são. As "redes sociais", criticam, revoltam-se, apoiam, mobilizam-se, sensibilizam-se, e, tal como um Hamlet ou um Lear, não raras vezes adoecem. Basta pensar na enorme profusão de conteúdos virais que assolam este Volksgeist virtual, que tanto pode ser um cão a fazer o pino como uma frase de Cristiano Ronaldo ou a imagem de uma criança morta numa praia grega. A "rede social" não tem sem sexo, idade, classe social ou profissão, mas configura socialmente aquilo a que Ortega chama "o triunfo duma hiperdemocracia", onde uma "massa actua directamente sem lei, impondo as suas aspirações e os seus gostos" [A Rebelião das Massas]. Ou uma ideologia, acrescento eu.

Uma hiperdemocracia que está muito longe da hiperoligarquia dos mercados, e que soa mais simpático. Se a democracia é boa, uma hiperdemocracia há-de ser ainda melhor. Não obstante, enquanto indivíduo, sujeito, pessoa, não posso deixar de sentir a minha ridícula pequenez e insignificância perante ambas as sensibilidades, estados de alma, atitudes, tendências, que não considero propriamente simpáticas, independentemente do que de lá possa vir. Tudo o que é hiper tende para o absolutismo e eu ainda sou daqueles que acham que small is beautiful. Ora, entre o absolutismo de um rei e um absolutismo sem rosto não sei o que escolher. Um rei ainda tem uma cabeça para ser cortada na guilhotina.