27 setembro, 2015

SEM TÍTULO

Vermeer |Senhora escrevendo uma carta com a criada, 1670

Se quisermos compreender grande parte da arte clássica, por exemplo, um quadro de Caravaggio ou de Ticiano, iremos precisar de um conjunto de clássicas referências de natureza religiosa, mitológica ou literária, sem os quais não entendemos o que vemos. Daí a importância dos títulos. Para contextualizar o quadro ou montra que, num primeiro momento, nos prepara para o que iremos ver. É isso que certamente acontece com o quadro, um quadro dentro do próprio quadro, que se vê, em segundo plano, na parede.

Porém, face a um quadro de género holandês, o quadro propriamente dito que aqui vemos, basta apenas entrar devagarinho, em bicos dos pés, e espreitar o que lá se passa, sem precisarmos de informações prévias, de uma introdução ou referências eruditas a seu respeito. O quadro pode ter um título  mas é um título que se pode dispensar, pois basta ver o que lá está, sem arrebatamentos épicos, excessos moralistas, sem retórica e artifícios, sem personagens exemplares ou esmagadoras, sejam elas sobrenaturais ou humanas, separadas da humanidade mais comum. A aura de uma pintura holandesa não é a mesma que ilumina um quadro de Ticiano ou Caravaggio. É a aura da vida como ela é, da vida que segue sem se fazer anunciar, sem o palco e os holofotes das grandes narrativas míticas e literárias. A aura da pintura holandesa é, por isso, a mais difícil de pintar. Pela sua obsessiva e pudica discrição, porque fora do palco e sem a luminosidade dos potentes holofotes. Uma aura escondida nos pequenos cantos e recantos do quotidiano e feita de pequenos silêncios ou de sons e gestos comuns e espontâneos, não teatrais, não encenados, não estudados, gestos e sons que emergem dentro da luz, não para serem narrados e expostos num altar sagrado ou sobre-humano, ainda que em plena natureza, mas para se apagarem serenamente nos minutos que vão passando e morrendo.  A vida como ela é. A vida como deve ser.