09 setembro, 2015

PINTURA SONORA EM TELA NOCTURNA

Joe Loenegard | Edward Hopper, 1967

Gosto de ouvir música de diferentes maneiras mas a de que gosto mais é às escuras, na cama, antes de adormecer. Sem dúvida, a melhor maneira de poder frui-la em estado puro. No meio da escuridão, no sossego da noite, sem mais estímulos sensoriais do que os sons que me chegam aos ouvidos em forma de música.

Eu vou a uma sala de concertos ver um pianista, um quarteto, uma orquestra. Não, não é para ouvir música. Vou ver a música a ser tocada. Eu posso ouvi-la em casa e tocada precisamente também pelos mesmos músicos ou por outros ainda melhores. Faz então algum sentido sair de casa, andar poucos ou muitos quilómetros para ir ouvir, por exemplo, um pianista tocar uma música que eu oiço em casa? Faz, enquanto acto social, tão social como ir ao cinema, ao teatro ou estar sentado num shopping a ver passar as pessoas de um lado para o outro. Estar no meio de seres humanos com os quais partilhamos o mesmo contexto social. No caso do concerto, misturado com outros seres humanos que gostam das músicas de que eu gosto e que elegeram também esse evento como programa de sábado à noite, depois de jantar. É como estar na bancada de sócios do Estádio da Luz mas sem bandeiras, cachecóis, gritos, saltos e a chamar gatuno ao árbitro. 

Com o cinema e o teatro, sendo também actos sociais, é diferente. No caso do primeiro pode-se invocar a maior dimensão do ecrã, alegando que não é o mesmo do que ver um filme numa televisão, portátil ou gadget. Quanto ao teatro, porque é um acto obrigatoriamente presencial. Seja no teatro da Trindade, em  Lisboa, ou no teatro Virgínia, em Torres Novas, eu tenho de me dirigir até lá para ver a peça. Claro que depois há quem leve mais e quem leve menos a sério estes actos sociais. Para alguns, sobretudo no caso da música, há toda uma liturgia que dá prazer cumprir. Mas há muitos que vão só para depois poderem dizer que estiveram ou serem vistos. Uma vez, durante a representação da Tragédia de Júlio César, pelo Teatro da Cornucópia, calhou ficar à frente de duas senhoras que passaram todo o tempo a conversar sobre tudo e mais alguma coisa como se estivessem na cabeleireira. Quando acabou a peça, levantaram-se para bater as palmas, bateram-nas, e tão entusiasmadas como se tivessem visto a peça, e lá foram embora para a vida delas, certamente continuando a conversa.

Também há quem vá a concertos não só como acto social mas também por idolatria. Para ver o artista. O artista que aprecia, adora ou venera. Claro que também vai ouvir a música de que gosta bastante ( e que também pode ouvir em casa), mas sobretudo para usufruir da presença física do músico, havendo qualquer coisa de erótico ou místico nesta presença do músico amado ou venerado. São aqueles que gritam por tudo e por nada, que investem fisicamente durante o concerto e que até se riem das piadas do cantor ou batem palmas às suas mensagens políticas entre duas músicas, mesmo não sabendo inglês. Mas riem-se porque os outros se riem e batem palmas para apoiar porque todos batem palmas e apoiam. Nestes casos já se trata de uma liturgia próxima das da IURD, muito longe, portanto, da perfunctória solenidade romana, pré-Vaticano II, dos concertos de música clássica, nos quais um simples espirro ou umas palmas batidas entre dois andamentos, podem deitar tudo a perder.

Em suma, nada tenho contra os concertos, gosto de ver salas de espectáculos cheias, e se gosto de as ver é porque também lá estou. Agora, ouvindo música na escuridão da noite, na escuridão que tudo apaga, em que o som atravessa o silêncio num contraste digno de um claro-escuro sonoro, sou só eu e a música. Não frente a frente, porque não é espacial, mas dentro, sem mácula. A desmaterialização do mundo sensível, um mundo provisoriamente apagado para dar lugar à pura inteligibilidade das formas musicais. Depois, como cereja em cima da música, o silêncio de Morfeu, dentro do qual me diluo.