05 setembro, 2015

PALIMPSESTO

Filipe Condado

Quanto mais velhos somos, mais coisas sabemos. Não há volta a dar, decorrendo isso de uma acumulação de experiências e de informações que os anos necessariamente trazem. Podemos, assim, dizer que a idade traz (ou devia trazer) alguma sabedoria. Mas também é verdade que quanto mais coisas há para saber mais coisas há para esquecer. Um mero juízo de facto. Mas também não têm de ser realidades incompatíveis, sendo errado dizer que o valor do que sabemos é inversamente proporcional ao valor do que esquecemos. Esquecer o que é preciso esquecer revela tanta sapiência como saber o que é preciso saber. Há coisas que sabemos que precisamos de saber e há coisas que sabemos que precisamos de esquecer, duas sabedorias siamesas que nunca deverão ser separadas. E esquecer, aqui, é esquecer mesmo, não brincar aos esquecimentos ou, como se diz anedoticamente nas piadas sobre Psicanálise, pagar para lembrar coisas que pagaríamos para esquecer. Quando é a sério, o esquecimento pode ser uma forma superior de lucidez e sabedoria.