24 setembro, 2015

OS AMIGOS DE OLEX

Gérard Castello-Lopes

Já me pude aperceber de que há muitos jovens entusiasmados com a mitologia dos anos 60, olhando para os portugueses que terão hoje 60 e 70 anos e imaginando uma juventude de sexo, droga e rock and roll, quiçá, tendo alguns deles estado em Woodstock. E soubessem eles o que foi o Maio de 68 e ainda iriam pensar que os seus pais também tivessem andado por cá a proibir proibir e outras coisas engraçadas do género. Ora, acontece que Portugal não teve anos 60. Portugal, nos anos 60, era o TV Rural, as picarias, o Cantinflas mais o Django e o Sartana, a Crónica Feminina, as festas de aldeia, o Roberto Carlos, o Nelson Ned, a Hermínia Silva e o Gianni Morandi no Quando o Telefona Toca, o Benfica-Sporting na telefonia, Madalena Iglésias vs. Simone de Oliveira, a orgulhosa conquista da montanha francesa pelo Joaquim Agostinho, as casas de pasto, os salões de bilhar, os magalas, longe da terra, a mandar piropos às moças ou a dizer «Adeus, até ao meu regresso» mas sem direito a filmes de Hollywood e a manifestações subversivas e nada de pretos de cabeleira loira e brancos de carapinha. Enfim, mais do que o trio sex, drugs and rock and roll, Portugal era a Gina, as minis da Sagres e o Nilton César a cantar «Receba as flores que lhe dou/ e em cada flor um beijo meu».

Claro que havia jovens a ir a Londres e a Paris, por exemplo, no Interail, mas sair do Portugal rural desse tempo ou de uma Lisboa ou Porto, ainda provincianas, era como ir à Lua. Claro que se ouvia Doors, Rolling Stones, Led Zeppelin e Cat Stevens, este para os lascivos slows dançados em festas de garagem, mas isso era para quem tinha dinheiro para comprar discos, garagem para dançar e andasse no liceu, raridade naquele tempo uma vez que, para a maioria, a juventude era vivida a trabalhar.

Isto em Portugal. Mas mesmo em Inglaterra, EUA ou França, o que foram os anos 60? Na nossa consciência actual os anos 60 foram uma década de contestação, subversiva, marcada por comportamentos desviantes e anti-burgueses. Como foi construída nas nossas cabeças esta imagem dos anos 60? Com um filme chamado Woodstock (que não passou de um simples fim-de-semana de guitarradas eléctricas), meia-dúzia de fotografias que se transformaram em ícones, umas canções que falam de sexo e uns velhotes narcisistas que falam hoje daquele tempo como se o seu tempo e as suas acções fossem o centro da História. Mas até que ponto estas referências traduzem fielmente uma época? Como podemos nós dizer que conhecemos e penetramos nos anos 60, graças a essas referências? Como é possível que, tão pouco tempo depois, já exista tanta mitologia nas nossas cabeças a respeito de uma época cujos protagonistas ainda estão vivos?

Ora, se a imaginação se liberta tão fácil e rapidamente para divagar sobre acontecimentos tão recentes, como podemos nós dizer que conhecemos o que foi viver durante a Revolução Francesa? Ou viver na Inglaterra vitoriana? Ou no Renascimento? Ou na Idade Média? Não podemos. Falar em liberdade, igualdade e fraternidade no século XVIII é tão válido como falar em sexo, drogas e rock and roll nos anos 60 ou reduzir parte do século XX português a Deus, pátria e família. Tudo chavões, slogans que jamais traduzirão o que efectivamente se viveu. Independentemente do vasto material documental que possamos ter, cada vez me convenço mais de que a nossa representação do passado será sempre um produto da imaginação. Começamos por estudar História mas, depois de adormecermos sobre os livros, será sempre a imaginação e a mitologia, como o Olex no cabelo, a fazer o seu trabalho de restauro.