28 setembro, 2015

O TEMPO DOS DIÓSPIROS

[O fescenino estado em que fico quando abro a porta do frigorífico para tirar dois dióspiros]

Já comi os primeiros dióspiros do ano. O mundo é intrinsecamente imperfeito mas isso é recompensado com a triunfal chegada dos dióspiros, essa fruta divina que me apazigua o corpo e o espírito. Dizia Kant que havia duas coisas que o enchiam de admiração e veneração: por cima dele, o céu estrelado, dentro dele, e a lei moral. Eu também tenho as minhas: os dióspiros e o chocolate, mas ambas bem dentro de mim. Perante o carnudo e mefistofélico brilho de um dióspiro, o S. Jerónimo que há em mim vai todo pela minha gula abaixo, tornando-me um escravo da mais lasciva, lúbrica e concupiscente libido. Em suma: torno-me um animal. Mais do que feroz, um animal perverso como o lobo mau mas com a diferença de não querer saber da avozinha para nada se a cesta do Capuchinho Vermelho levar dióspiros. Enfim, um animal desvairado, desconcertado, desregulado, desrecalcado. Começo e não consigo parar, sentindo-me um incontinente D. Juan perante esses luminosos objectos de desejo. E, como no «Catálogo» de Leporello, marcha tudo: grandes e pequenos, mais e menos maduros, mais e menos aromáticos, mais e menos alaranjados enfim, basta serem genuínos em vez daquelas excrescências horrorosas que aparecem nos supermercados a que chamam vergonhosamente dióspiros e que lembram os legumes gigantes que aparecem no Sleeper do Woody Allen.

As pessoas ciumentas não acham piada se virem o parceiro de olhar fixo noutra pessoa, sobretudo se for bem parecida ou interessante. Ora, eu consigo estar perante uma mulher bonita com o mesmo olhar depurado com que estou, impávido, diante de uma sensual pintura com barrocas carnes. E qual o problema de jantar com uma mulher bonita, se o jantar é um belo robalo e não a mulher bonita? Abrasado estará o robalo e não eu como diria S. Paulo num das cartas aos Coríntios. Mas, suprema ironia, mulher minha tem todas as razões do mundo para sentir ciúmes dos meus dióspiros. Só que ninguém faz uma cena de ciúmes por causa de um dióspiro, até porque parece demasiado parva a ideia de um triângulo amoroso formado por um homem, uma mulher e um dióspiro. Porém, no meu caso faria todo o sentido, quando concentro todo o meu desejo e sentidos naquele fruto tão divinamente pagão que eu como para tornar possível o milagre de ouvir uma suite de Bach com a língua.

Ao contrário do chocolate, o dióspiro é um milagre da natureza, uma hierofania, um vestígio da passagem dos deuses por este mundo, um inexplicável e misterioso poema metamorfoseado em delicada e prístina frutose que lhe confere um cosmogónico sabor. Ainda estou para saber o que se passou na cabeça do Polanski para meter a Nastassia Kinski a comer aquele maldito fruto carnudo, responsável por metade da humanidade desejar transformar-se num morango. Ok, o morango fica mesmo a matar naquela boca que consegue o improvável desafio de surgir como astuta flor carnívora plantada no imaculado rosto de um inocente anjo bucólico. Mas é demasiado óbvio, senso comum puro e duro. Boca+morango, essa tão carnal simbiose, é uma associação tão mecânica e previsível como uma lei de Newton. Ela devia era comer um dióspiro, esse sim, o verdadeiro e dionisíaco fruto redentor depois de cairmos todos no abismo do tempo histórico por causa de uma descoroçoada maçã. O morango é pura sensualidade. A maçã, biblicamente, é simbólica, mas na sua realidade sensível trata-se de um fruto apolíneo que apazigua a fome e o paladar mas sem nos comprometer. O dióspiro, esse, é puro fulgor dionisíaco, transformando a boca numa fenda paleozóica onde se dissolve toda a nossa identidade empírica. Há quem reze o terço ou oiça políticos na televisão. Eu como dióspiros enquanto pressinto flautas e tambores pagãos em cujos frémitos musicais inebriadamente me evado. Evoé, evoé, evoé.