15 setembro, 2015

O DESCONHECIDO DO NORTE-EXPRESSO



Fiz o que achava que seria incapaz de fazer: fotografar uma pessoa sentada mesmo à minha frente durante uma viagem de comboio. O mais ousado que tinha feito foi ter andado há uns anos a fotografar peixeiras na Nazaré. Mas tinha uma simpática objectiva que permitia uma distância de conforto entre mim e o objecto do meu desejo visual. Desta vez, porém, a distância era perigosa, podendo ser medida em centímetros. Mas não resisti. Pego no telemóvel e, como uma criança que vai fazer um disparate sem que os outros se apercebam, zás, disparo, sem que ninguém, felizmente, tenha dado por isso. Ora, o que me levou então a perder a cabeça para fazer o impensável? A roupa deste senhor. A roupa? Sim, a roupa e duas horas de viagem em que há tempo para passar tudo e mais alguma coisa pela pobre cabeça e cheia de correntes de ar de um ocioso viajante. Neste meu caso, três exercícios que me ajudaram a passar o tempo e que irei descrever de seguida.

Mas antes disso, o  que me despertou o interesse na roupa deste senhor? O gosto. Percebe-se, objectivamente, que se trata de um homem de origem humilde, como é humilde o seu sentido estético no que ao vestuário concerne, longe, portanto, do bom gosto tal como convencionado em classes sociais mais urbanizadas, escolarizadas e, já agora, mais elevadas. Ora, posso estar a ser um bocadinho parvo, nada que surpreenda, mas não deixo de aqui vislumbrar um grande mistério. Falando objectivamente, de um modo claro e distinto, o que tem este homem vestido? Uma camisa branca com umas riscas discretas e umas calças de fazenda azuis. Clara e distintamente falando, veste o que vestem milhares de pessoas que vão da Quinta da Marinha à City Londrina, passando por Wall Street e pelas lojas mais refinadas de Paris ou Milão: uma camisa às riscas e umas calças azuis. Perfeitamente normais, sem cores berrantes, desenhos estridentes, pormenores ridículos, coisas que envergonhem. Simplesmente umas calças azuis e uma camisa às riscas. Podemos mesmo dizer que há uma certa dignidade e aprumo no modo como este homem se veste. No entanto, quem imagina, sei lá, o Miguel Sousa Tavares vestido assim? Por que razão seria MST incapaz de vestir esta camisa, quando o próprio veste camisas às riscas? Foi esta experiência radical que me atenezou o juízo durante uma parte da viagem, dando origem a três variações.

1. A primeira tem que ver com o facto de, como diria Kant, o juízo estético não ser construído com base nas mesmas características objectivas de um juízo científico ou de uma qualquer elementar definição. Podemos definir objectivamente uma rosa: descrever a sua cor, forma, textura, tamanho, aroma. Mas como definir a sua beleza? Sabemos onde estão a cor e a forma da rosa, mas a sua beleza? Claro que está no sujeito, mas de que modo? Arbitrariamente ou com certas condições? Arbitrariamente não é pois há uma lógica de previsibilidade no gosto que faz com que saibamos de antemão que esta camisa não é vendida numa loja de Milão nem que os homens que compram camisas nas loja de Milão a irão vestir. Mas com base em que regra? Onde está a definição do que é bonito? Por que razão esta camisa não é bonita quando a sua definição (camisa branca às riscas) coincide com a definição de uma camisa bonita? Mais: quem sou eu para dizer que esta camisa não é bonita ao contrário das que eu compro, que naturalmente considero bonitas? Direi que sou resultado de um ambiente, de uma educação, de uma experiência mimética que me leva a reproduzir o gosto de outras pessoas que me habituei a considerar como tendo bom gosto. Sim, mas onde está o código, o manual de instruções, o prontuário que eu possa abrir à frente deste senhor para lhe explicar que tenho mais bom gosto do que ele? Nada, apenas um silêncio embaraçoso que serei incapaz de ultrapassar.

2. Esta história da camisa e o embaraço resultante dela, levou-me igualmente a pensar no embaraço que por vezes resulta do facto de não ser capaz de explicar porque razão um livro ou um quadro são maus. Já não estou apenas a falar de beleza, de uma rosa ou de centenas de outras coisas consideradas belas, mas de objectos passíveis de serem avaliados com base em certas regras. Mas tal como é ténue a linha que separa esta camisa de uma camisa de bom gosto, também o é a linha que tantas vezes separa um bom romance de um péssimo romance, um bom quadro de um mau quadro, ainda que exista um conjunto de condições técnicas ou estéticas que permitam diferenciá-los. Já me aconteceu perguntarem-me por que razão não gosto do livro X, que até está bem escrito, ou do quadro Y, que está muito bem pintado, e eu não consigo explicar. E mais embaraçado fico quando me dizem que o quadro Y tem fortes semelhanças com os quadros de um pintor unanimemente reconhecido. O que dizer se me perguntarem por que razão gosto daquele quadro de Monet e detesto aqueloutro que em tudo faz lembrar os quadros de Monet? Onde está o código, o prontuário, o manual que me permita dizer: «Olha, abre na página 38 e tens lá a explicação». Nada, apenas um silêncio embaraçoso que serei incapaz de ultrapassar.

3. Mas a camisa deste senhor levou-me ainda mais longe, dando eu graças por a viagem ser apenas de duas horas, sob pena de não saber onde iria parar, não o comboio mas a minha cabeça, cujo destino tantas vezes se revela imponderável. Imaginemos que um historiador descobre esta fotografia daqui a 300 anos. Será que tem elementos objectivos que lhe permitam avaliar com algum rigor o que seria socialmente este homem? Creio que sim. Se tiver um generoso arquivo fotográfico de há 300 anos, mostrando pessoas de várias classes sociais nos seus locais de trabalho, em casa, passeando ao fim de semana ou em festas, o historiador do futuro irá perceber que existem padrões que apenas surgem em certas classes sociais e em certos contextos sociais. Irá ver centenas de fotografias de festas de aldeia, cafés de aldeia, romarias ou locais de trabalho onde laboram pessoas de um nível social mais baixo, onde surgem camisas como esta. E centenas de fotografias de festas urbanas, restaurantes caros ou locais de trabalho onde laboram pessoas de um nível social mais alto, onde surgem camisas que, apesar de, objectivamente, não se distinguirem muito desta, não são como esta. Basta pois ao nosso historiador um simples trabalho empírico, de pura observação, para finalmente chegar a uma conclusão a respeito da origem social deste homem. Porém, a sua tarefa, apesar de vitoriosa, não deixa de ser limitada. A sua compreensão não deixa de ser meramente exterior, baseada num trabalho de pura catalogação. Ele separa as fotografias e diz: "As do lado direito são de pessoas de uma classe alta e cujo gosto, para a época, era considerado refinado, as do lado esquerdo são de pessoas de uma classe baixa cujo gosto, para a época, não era considerado refinado". Quer dizer, ele explica isso e explica com o mesmo rigor com que um cientista explica uma lei da natureza ou um médico por que razão um diabético deve tomar insulina. Mas como pode ele compreender o sentimento estético de pessoas que viveram há 300 anos? Quando nós, no mesmo presente, temos dificuldade em ter a experiência estética e emocional de alguém que tem uma experiência estética e emocional completamente diferente da nossa, como é possível tê-la com diferença de séculos? E quando falo em experiência, é no sentido mentalmente mais lato, pensando em todas aquelas que estão tanto a montante como a jusante dos factos históricos objectivos Quando fazemos história, falamos de classes sociais, de revoluções, revoltas, chacinas, acordos, casamentos, missões, aventuras. Falamos e sabemos do que falamos. Mas como podemos ter a experiência da experiência dessas pessoas? Falamos tanto, e com dados objectivos, de Nobreza, Clero e Povo na Idade Média, mas sabemos lá nós as experiências mentais inerentes a essas classes. Mesmo ao nível da História mais recente, como podemos ter a experiência de grande parte do povo alemão nos anos 30 e 40 face ao nazismo, à guerra, aos judeus. Sabemos, e objectivamente, o que é o ódio, a raiva, o ressentimento, o desprezo. Mas como saber o que é isso em 1940, em 1848, em 1792, em 1453 ou 476? Sabê-lo, é tão vago como saber por que razão a camisa deste homem não é bonita apesar de tê-la achado bonita no dia em que a comprou. Podemos tentar explicar com alguma clareza mas não deixa de ser um exercício projectivo, quer dizer, é de nós que continuamos a falar. Para além disso, apenas um embaraçoso silêncio que seremos incapazes de ultrapassar.

E pronto, a viagem, entretanto, chegou ao fim e lá nos separámos O senhor foi à vida dele, eu fui à minha. Mas, no fundo, isso era o que já tinha acontecido em toda a viagem. E no fundo, no fundo, é provavelmente também isso que acontece mesmo quando falamos uns com os outros.