01 setembro, 2015

O CÃO

Max Scheler | Bruxelas, 1958

Dornes é um belo e tranquilo lugar, junto à albufeira de Castelo de Bode. Imaginemos agora oito jovens missionários de uma paróquia de Lisboa, a caminho de Dornes para uma semana missionária. Oito jovens pacíficos, bondosos, imbuídos de espírito evangélico, a caminho de um belo e tranquilo lugar como é Dornes para uma semana missionária. A viagem, entretanto, acabou desta maneira porque o condutor quis desviar-se de um cão para não o atropelar. Mas outra coisa não seria de esperar de um condutor missionário a caminho de Dornes para uma semana missionária.

Eu li esta notícia depois de, no duche, estar a pensar na delicada posição dos países europeus face aos milhares de refugiados que querem cá viver. Claro que a cristã e humanista Europa deve acolher pessoas que fogem da guerra, da fome, das doenças, das violações, por viverem em Estados falhados ou em vias de falhar. Ou por conflitos de natureza religiosa e sectária que nós, europeus, já resolvemos (parece, mas não foi assim há tanto tempo). Não se trata de uma obrigação política mas moral. E a moral, como diria Nietzsche, ajuda-nos a dormir melhor, ainda que, como diria Freud, com uns sonhos estranhos pelo meio. A nossa obrigação é acolher quem surge, moribundo, à nossa porta, implorando uma vida decente. Mas uma coisa é o imediato, outra coisa é a história. Claro que a história é feita de muitos imediatos. E se cada imediato é previsível, o conjunto de muitos imediatos, fios que se vão tecendo invisivelmente, será sempre uma incógnita. Na história, nunca devemos respirar de alívio por acontecer uma coisa boa, nem devemos entrar em pânico por acontecer uma coisa má. Porque há coisas más que levam a coisas boas e coisas boas que levam a coisas más. Reitero, pois, o que aqui disse, a respeito da tão aclamada "Primavera Árabe", apenas como exemplo do que estou a dizer.

A vinda de milhares de muçulmanos para uma Europa que já tem de lidar com problemas originados por outros milhares que já cá nasceram pode não ter consequências de maior ou até ser benéfico. Mas também pode ter consequências difíceis ou mesmo muito difíceis. Mas a consciência da última possibilidade não é motivo para não fazermos o que impõe a nossa consciência moral. Depois logo se vê. O que, aliás, não é novidade nenhuma. Dizia o outro que o mundo está perigoso. O mundo sempre foi perigoso, e a história sempre foi, e sempre será, um fermento perigoso para bolos que tanto podem saber muito bem, como no final dar cabo da barriga.

No momento, podemos estar todos a torcer, uns para desviar a carrinha para não matar o cão, outros a dizer "Que se lixe o cão" para evitar chatices de maior. Na estrada para Dornes sabemos logo o que devia ter sido feito. Na história, pelo contrário, não vale a pena grandes entusiasmos especulativos. Temos mesmo de ficar sentados à espera de notícias que demorarão sempre muito tempo a chegar.