30 setembro, 2015

NO PRINCÍPIO ERA O TEMPO

Richard Avedon

Há insectos que só vivem 24 ou 48 horas. Nascem, vivem e morrem em 24 ou 48 horas, o seu ciclo de vida é de 24 ou 48 horas. As tartarugas gigantes das ilhas Galápagos, por sua vez, vivem em média mais de 150 anos e os elefantes 100 anos. Outros animais vivem 3, 10 ou 30 anos. O homem contemporâneo, em média, morre algures entre os 70 e 80 anos. Pensar nisto é mais importante do que pode parecer à primeira vista. Eu imagino a vida como um filme onde fazemos de nós próprios. E há filmes para todos os gostos e feitios: dramas, comédias, tragédias, filmes de terror, policiais. De momento, não é isto que me interessa mas apenas a duração do filme.

Não pensando agora no cinema clássico, os filmes de 3 ou mais horas não são habitualmente filmes de acção pura e dura. Um filme de acção pura e dura que durasse esse tempo seria cansativo e desgastante. Os filmes longos têm uma respiração própria, diálogos que vão para além da espuma que rapidamente se dissolve nas frases, com momentos de instropecção, com planos longos, momentos de silêncio. Na literatura passa-se o mesmo. Guerra e Paz tem momentos de acção alucinantes mas, depois, páginas e páginas de filosofia pura e dura. Também no Quixote vamos encontrar histórias dentro da própria história, todas elas com um sentido moral ou psicologicamente penetrante, que cortam a continuidade da acção em terras de Castilla la Mancha, cujo centro é o próprio cavaleiro da triste figura.

Isto faz-me perguntar o seguinte: que significa viver 70 ou 80 anos? É muito tempo ou pouco tempo? Ora bem, não vivemos tanto como a tartaruga gigante ou o elefante mas, comparada com as vidas da esmagadora maioria dos seres vivos, é uma vida longa. Talvez isto possa significar que não podemos viver a nossa vida como se de um filme de acção se tratasse. Eu entendo que um insecto seja frenético, ande sempre a esvoaçar. Entendo que um rato, nos seus dois anos de vida, não possa estar muito tempo parado. Mas um ser vivo que vive 70 ou 80 anos, não precisa, nem pode estar sempre em movimento. Neste sentido devemos tomar como exemplo a tartaruga ou o elefante. Uma vida humana, pela sua duração, precisa de pausas, de momentos mortos, de silêncios. A vida humana não é uma vida de acção mas uma vida com acções. São coisas completamente diferentes. Eu vejo à minha volta pessoas que parecem uns insectos tresloucados, pessoas que vivem como se as suas vidas decorressem num espaço de 24 horas.  Mas irão viver 70 ou 80 anos. É como imaginar uma cabeça de tartaruga num corpo de insecto.