02 setembro, 2015

JEAN-HONORÉ FRAGONARD - O BEIJO ROUBADO


A luz. O que mais gosto de ver nesta cena doméstica é o modo irónico (perverso?) como o pintor joga com dois diferentes tipos de luz. Reparemos, antes de mais, na descontinuidade espacial que representa ao mesmo tempo uma descontinuidade moral ou social: ao fundo, temos um grupo de mulheres em amena cavaqueira, conversando e jogando. Uma reunião social, lícita, pública, aberta. Perto de nós, pelo contrário, em grande plano e como motivo principal do quadro, uma cena privada e ilícita, neste caso, uma beijoca dada à socapa, algo fugaz e desajeitada, certamente devido ao seu carácter ilícito.

O sentido da exposição destas duas cenas, inverte, por isso, o seu sentido moral ou social. O que é feito às escondidas é revelado em toda a sua evidência, o que é público, aparece de um modo distante e fugaz, quase fantasmagórico, eclipsado. Quase só por um acaso (a porta que ficou entreaberta), podemos ver o que se passa na outra sala. Pelo contrário, o que é privado, ilícito, escondido, torna-se o centro do próprio quadro. Daí as diferenças de luz. A luz do espaço público torna-se uma luz baça, nublada, esvanecida. Já a luz que banha o casal escondido é uma luz brilhante, forte, viva, orgulhosa de si própria e do que ilumina. Sobretudo no vestido da mulher. Mulher cujo gesto é de fuga mas, ao mesmo tempo de aproximação. Graças, pois, à luz, o beijo que só é possível ser dado na secreta obscuridade daquela casa e de um tempo fugaz, adquire assim uma aura, um brilho, uma densidade existencial e emocional que relega para um plano irrelevante o que se vê para além dela. Uma celebração do efémero, do instante, de uma pulsão de vida (Eros) que surge espontaneamente e se sobrepõe à repetição convencional dos gestos públicos que podemos adivinhar na cena do fundo. O que é superficial passou para o fundo, tornando-se fugaz, o que é obscuro e fugaz passou para a superfície, eternizando-se num majestático embrulho de luz.

A luxúria, no seu mais sentido puro sentido etimológico e amoral, e não moral ou religioso é, por isso, o verdadeiro centro deste quadro. Não se trata de uma luz que se acende de repente para apanhar os jovens em pleno delito amoroso, conferindo-lhe, se tal acontecesse, um valor moral negativo, uma denúncia, uma rede moral que os capturou em pleno delito. Pelo contrário, é uma luz que celebra o delito que, neste sentido, deixa de o ser para se tornar um momento luminoso da vida. Fragonard, um superior arauto do erotismo e da sensualidade, tem, neste seu beijo roubado, uma prova da sua grande mestria.