06 setembro, 2015

FREUD EM BUCARESTE

Sergei Eisenstein | Ivan, o Terrível [Fotograma]

Durante o julgamento do casal Ceausescu, momentos antes do fuzilamento, os soldados começam a atar as mãos de Nicolau e de Elena mas estes resistem indignados. Ela, furiosa, entre outras coisas, vocifera: "Como podem vocês fazer-me isto? A mim, que vos criei como uma mãe".

A frase, que sugere o trágico desespero de uma mãe que vai ser morta pelos filhos, faz-me pensar na actual relação carismática entre quem governa e é governado, sendo hoje inimaginável ver o presidente de um país ser apresentado como muito amado e estimado líder, como acontece aqui com Ceausescu antes do seu derradeiro e, mais uma vez, paternal discurso. É verdade que se trata de um caso radical de culto de personalidade, típico das horríveis ditaduras comunistas que assolaram a Europa durante décadas. Mas não deixamos de lamentar o facto de a Europa estar carente de políticos com a aura pessoal de um Willy Brandt, de um Miterrand, de um De Gaulle, de um Churchill, de um Craxi, de um Kreisky. Para já não falar de um mítico Roosevelt ou Péron, do outro lado do Atlântico, de um Nasser ou Ataturk mais para sul, ou, num registo bem mais radical, da grandeza de um Bismarck ou de um Mazzini. Claro que não vou invocar um Hitler, um Estaline, um Kim Il Sung, um Franco ou um Salazar, pois apesar da sua grandeza, eternidade, do seu estatuto bigger than history, serão pessoas historicamente indesejáveis.

Eu acredito que, lá no fundo, quase todos temos um inconfessável fraquinho monárquico, de sermos pastoreados por homens ou mulheres que sejam mais do que simples executivos que gerem um país a partir de um vulgar gabinete. Isso explica, por exemplo, o sucesso monárquico-republicano de Mário Soares enquanto PR, o improvável carisma de homens secos e graníticos como Eanes ou Cavaco, como, muito antes, a esperança num homem como Sidónio Pais durante a rebaldaria da I República que veio dar origem, uns anos mais tarde, à descida do professor de Coimbra até Lisboa. Porém, a atracção mítica por este tipo de figuras não deixa de estar fundada em ilusórios alicerces. Países há bem governados, há décadas, por líderes que ninguém conhece e que jamais ficarão para a história. Por outro lado, tendemos a esquecer os erros tremendos de líderes que ficaram na história mas que estiveram muito longe de serem consensuais no seu tempo.

O nosso lado infantil e cor de rosa adora figuras carismáticas. Mas aquilo que se pede a um verdadeiro estadista é que, como um canalizador numa cozinha, seja pragmático e resolva os problemas que é suposto resolver. Claro que um político precisará sempre de um suporte ideológico graças ao qual nos diga ao que vem e como vem. E precisará de ser forte e determinado no modo como o vai fazer. A ideologia, porém, é demasiada vaga e abstracta para governar. E quando se torna obsessiva pode tornar-se mesmo perigosa. Se então juntarmos uma forte ideologia a um político auto-centrado e que se julga acima do comum dos mortais, podemos estar perante uma mistura explosiva. A democracia é difícil mas é um momento inevitável para o crescimento intelectual e emocional de qualquer sociedade que se pretende adulta. Para isso será necessário matar o pai. Quase todas as democracias actuais tiveram de, em tempos, matar o seu. Algumas, pelos vistos, também a mãe.