26 setembro, 2015

FODER O JUÍZO

[O escritor em pleno acto]

A editora D. Quixote tem uma Biblioteca António Lobo Antunes, composta, não por livros de António Lobo Antunes mas por livros que fazem parte da Literatura Universal, criteriosamente seleccionados por ele. A minha versão de A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne (ou A Letra Encarnada) pertence a esta colecção, cujo tradutor é também ele um conhecido escritor chamado Fernando Pessoa e a respeito de quem diz o autor da introdução à obra, George Monteiro:

«Poderia parecer a princípio que uma novela sobre puritanos na Nova Inglaterra, no século dezassete, no qual emerge uma curiosa ménage à trois resultante de uma imprudência sexual entre uma jovem casada com um velho e o seu pároco estaria longe dos interesses característicos de Fernando Pessoa. Afinal, é difícil dizer-se que os escritos de Pessoa revelam muito interesse em questões como o amor heterossexual, casamento, crianças, maridos enganados e abandonados, amantes fúteis e toda a questão do adultério».

George Monteiro é professor de Estudos Portugueses e Brasileiros e por isso não me surpreende o facto de achar natural que um homem como Fernando Pessoa não se interessasse por uma obra com os contornos romanescos e sexuais que esta apresenta. O que já verdadeiramente me surpreende é o facto de, para além de escritor, um psiquiatra como Lobo Antunes relutar em aceitar que um homem, por nunca ter feito sexo, possa ser bom escritor. Como escritor deveria perceber que são duas realidades distintas. Há muita coisa que pode levar uma pessoa a escrever, tendo ou não relação com a vida sexual do homem ou mulher que existe para além do escritor. Pensará então Lobo Antunes que quanto mais o faz melhor escritor se será? Por esta ordem de ideias deve ter sido Nathaniel Hawthorne um grande fodilhão (digamos assim, para mantermos o elevado nível da crítica literária) para poder fazer parte da sua selectiva biblioteca, possibilidade que, como todos que o conhecem saberão, não tem pernas para andar.

Mas é o facto de ser psiquiatra que faz convencer que a afirmação não passa apenas de um tonto soundbyte só para poder dar nas vistas. Nunca ter feito sexo ou quase não o fazer, associado a um natural dom criativo, é precisamente o que pode potenciar um grande escritor, um grande pintor, um grande compositor. Não significa isto que não o fazer seja condição necessária para o ser, o que seria, obviamente, absurdo. Significa apenas que não o fazer é uma experiência tão válida e relevante como o fazer, podendo conduzir ao mesmo resultado criativo, embora por caminhos opostos. Eu não sou psiquiatra mas isto faz parte do que há de mais elementar na psicologia da arte.

Dizia Baudelaire que «quanto mais se cultiva as artes, menos se fode» e que a «foda é o lirismo do povo». Assumo humildemente não poder tomar posição relativamente a esta questão pois não faço a mais pequena ideia sobre como fodem o povo e os artistas e o que andam estes a fazer quando não estão a criar. Mas quando para além disso afirma que «Foder é querer entrar noutro, e o artista nunca sai de si», já o meu sobrolho se levanta para lhe dar atenção. O psiquiatra Lobo Antunes não consegue entender o escritor Fernando Pessoa. Mas talvez o escritor Charles Baudelaire ajude a entender melhor, tanto o escritor Lobo Antunes, como o homem Lobo Antunes. Disse este várias vezes que não consegue viver sem escrever, até porque, como também disse já disse, a escrita não faz parte da sua vida, ele é que faz parte dela. Mas também já toda a gente que o leu deve ter percebido que escrever será para ele uma forma de foder o juízo. E Lobo Antunes, como toda a gente sabe, escreve bastante.