08 setembro, 2015

ESTUPIDEZ AOS PONTAPÉS


Nikolai Bakharev

Percebe-se o que queria dizer  Talleyrand com aquela ideia da palavra ser dada ao homem para esconder o pensamento. Um mestre no assunto. Homem da diplomacia, sobrevivente de vários regimes que foi servindo, conhecia bem a importância da palavra na arte da dissimulação, do fingimento, da estratégia, como base da representação teatral nos palcos da vida. Mas uma coisa é falar para esconder o pensamento, outra é falar para revelar a ausência de pensamento. 

Vamos lá ver uma coisa, as pessoas dizem coisas só por dizer e não tem mal nenhum, faz parte da conversação. Arrepiante é quando se transforma em notícia o que se diz só por dizer. Só isso explica o facto de fazer uma (boa) notícia com esta ideia peregrina de o Cristiano Ronaldo, o melhor jogador do mundo, um goleador nato, poder marcar um golo a qualquer momento. Para quê destacar uma frase que foi dita só por dizer? Ou o que leva um jogador a dizer, antes de um jogo, que acredita num bom resultado, ou o treinador de uma equipa como o Barcelona dizer que não são invencíveis? Simples: a histérica mediatização do mundo actual, que alimenta o nosso insaciável desejo de sermos informados minuto a minuto sobre tudo e sobre nada, ou de estarmos sempre conectados a qualquer coisa, seja uma televisão, jornais on line sempre em actualização, jornais desportivos diários, um telemóvel ou uma rede social, faz com que hoje o futebol seja não apenas o que é, um jogo entre duas equipas num relvado, mas uma pletórica actividade discursiva que começa dias antes do jogo e continua dias depois dele. Claro que o futebol foi sempre tema de conversa à mesa, no emprego, barbearias, lojas de ferragens ou adros de igreja. Mas uma coisa é falar de futebol através de uma prática socialmente genuína, outra será transformar o futebol numa actividade discursiva onde só pode reinar a estupidez.


Falemos então de estupidez. Dirigentes, treinadores, jogadores, parecem todos concorrer para ganhar o campeonato da estupidez, numa espécie de teatro do absurdo. Tal só acontece porque há sempre um microfone ou câmara à frente para depois um jornalista, que tem tanto de estúpido como de oportunista, se lembrar de transformar uma frase estúpida numa notícia estúpida. E por que razão faz isso? Porque há pessoas estúpidas que perdem tempo a ler notícias estúpidas em vez de coisas não estúpidas. Imaginemos um tipo que diz: "Ok, está na hora de ir almoçar". Normal. Mas o que pensar de um tipo que diz: "Ok, está na hora de ir almoçar uma vez que o ser humano não pode viver sem comer e, já agora, espero não sentir fome depois de almoço."? Pensaríamos que não bate bem da bola. À primeira até seríamos capazes de achar alguma graça. Mas se passasse a vida a falar assim, deixaríamos de ter paciência para o ouvir. Mas o que ele diz é exactamente o que jogadores e treinadores dizem por tudo e por nada. A diferença é que nós continuamos a ouvi-los porque somos tão estúpidos quanto eles.


Mas pronto, uma das coisas que aprecio na estupidez do futebol é o facto de ser assumida, ao contrário do que se passa em tantas outras actividades em que as pessoas fingem ser inteligentes e profundas. Eu encaro toda esta estupidez do mundo do futebol com condescendência e até alguma ternura. O que me preocupa é a estupidez disfarçada de inteligência, sabedoria, competência técnica, a estupidez ex cathedra, refinada, doutorada e engravatada. A estupidez de políticos, economistas, empresários, sindicalistas, fazedores de opinião. A estupidez que faz dizer o óbvio em função dos óbvios interesses de quem o diz mas com a gravidade intelectual, sobriedade axiomática ou imparcialidade epistémica de um cientista. A estupidez no futebol é como o próprio futebol: não passa de um jogo, vivência lúdica de gente rezingona que dá aquilo que tem, puro divertimento que não aquece nem arrefece. 

A outra estupidez, essa sim, é perniciosa. E temos de ser nós a tomar bem conta de nós próprios para não sermos arrastados por ela. Porque está em todo o lado. Aos pontapés. O domínio de Talleyrand é o do teatro, dos jogos, dos interesses. O domínio do futebol, sempre que sai das quatro linhas é também o do teatro. Só que o teatro do absurdo e não o teatro do fingimento, do poder, da humilhação do adversário com um sorriso nos lábios. O discurso no futebol é a expressão mais eloquente da ausência de pensamento, da total vacuidade, da transformação de seres normais e inteligentes em "máquinas falantes". Ainda assim, confesso, prefiro a indigência e vacuidade discursiva daqueles que falam em vez de dar pontapés na bola, que é o que nós queremos que façam, do que o cinismo e a hipocrisia de outros que falam como quem dá pontapés