12 setembro, 2015

BEM E BONDADE

Julia Margaret Cameron (1800's)

Padecemos muitas vezes da ideia de que só tem legitimidade o que pode ser suportado por uma justificação. A ciência, ao justificar, torna as coisas claras, compreensíveis e, mais importante ainda, naturais e desejáveis. Se está provado que as vitaminas são importantes para a saúde, logo devemos comer várias peças de fruta por dia. Certo. Mas será necessário seguir este padrão em todas as áreas da vida humana, nomeadamente, no campo moral. 

Os grandes filósofos sistemáticos são grandes justificadores. Engenheiros conceptuais que elaboram, entre tantos outros, projectos a respeito do Bem. Não há como evitá-lo, a natural propensão humana para pensar leva inevitavelmente a essas construções. Somos tão naturalmente filósofos como somos carpinteiros, médicos ou agricultores. Ora, o Bem, só por si, não faz mal a ninguém. Mas é uma ideia, uma abstracção que explorada em certas circunstâncias políticas, religiosas ou técnicas e com o pretexto de levar a felicidade aos seres humanos, está muitas vezes na origem de monstruosos programas marcados por perseguições, tortura, morte, infelicidade.

Há, porém, uma pequenina frase de Ikónnikov, o latrineiro, personagens de Vida e Destino, do escritor russo Vassili Grossman, que é todo um programa: «Não acredito  no bem, acredito na bondade». Acredita que a bondade, sendo um mero sentimento, e, por isso, mais humilde do que qualquer formulação racional do Bem, é moralmente mais eficaz, saindo-lhe espontaneamente dos corações, sem precisar de sofisticadas justificações racionais ou da complexidade arquitectónica de um sistema moral que nos ensina o que devemos fazer. Para quê subir mais para montante no rio das justificações, uma vez que ela é já é a nascente cuja água nos mata a sede? Quem precisa de ideias quando o objectivo é simplesmente matar a sede?