21 setembro, 2015

AS FORMIGAS

(felizardo que escapou a uma arma química)

Estará alguma coisa a escapar-me na indignação a respeito dos ataques com armas químicas na Síria e no Iraque? Ou de o mundo entrar em sobressalto moralista sempre que se anuncia o recurso a armas químicas? Não, não sou propriamente um entusiasta das armas químicas. Direi mesmo que no que toca à violência não sou entusiasta de coisa nenhuma, excepto quando ando desesperado a assassinar melgas a meio da noite para não me sentir no vale do Mekong a ouvir helicópteros a rasarem os meus ouvidos sem me deixarem dormir.

Apenas não percebo qual a diferença entre morrer com uma arma química, um tiro de metralhadora, um míssil, uma martelada na cabeça, veneno para os ratos, uma catana, um saco de plástico na cabeça ou a ouvir um debate entre Passos Coelho e António Costa. Daí a indignação fazer-me lembrar estes versos do tempo da guerra civil espanhola: "Na noite em que a mataram/ Rosita teve muita sorte/ Das três balas que apanhou/ Só uma é que foi mortal" Provavelmente pensarão que centenas de pessoas mortas com um míssil, marteladas na cabeça ou veneno para os ratos terão mais sorte do que outras mortas com armas químicas, sei lá, como se estas matassem mais do que as outras ou a morte destas fosse mais dramática do que a morte das outras.

Por isso, facilmente imagino Luciano, o satírico escritor que por acaso até nasceu na Síria, a escrever agora um novo Diálogo dos Mortos, pondo a conversar uma pessoa que tenha morrido com uma arma química com uma outra que morreu com uma martelada na cabeça. Certamente que o morto da arma química ir-se-ia sentir  bem mais infeliz do que o morto da cabeça estilhaçada, provavelmente por razões estéticas, atendendo ao modo como os produtos químicos dão cabo da pele, enquanto o outro sempre podia disfarçar as brechas cranianas com os seus recursos capilares, diferença que, nos nossos dias, atendendo ao valor que se dá ao bom aspecto físico das pessoas, não será de desprezar. E aproveitando este mundano assunto para continuar a expor a minha vasta erudição clássica, direi mesmo que se houvesse armas químicas na Idade Média, talvez Dante tivesse criado de propósito novos círculos na sua Comédia. Apesar de não serem pecadores, os desgraçados que tinham sido mortos com armas químicas iriam ter um círculo só para si no qual iriam sofrer exclusivas penas, apenas acessíveis a alguns mais infelizes dos mortais, enquanto todos os outros felizardos que tivessem sido mortos com marteladas, veneno para os ratos, enforcados, fuzilados, afogados ou atirados para precipícios, deveriam comprazer-se numa elevada dimensão do Paraíso, ao lado de São Tomás de Aquino, S. Boaventura, S. Alberto Magno, e outros veneráveis santos. Fosse a Idade Média mais cientificamente sofisticada e, quiçá, talvez Umberto Eco tivesse posto Jorge de Burgos a assassinar os pobres monges na abadia alpina com gás sarin.