22 setembro, 2015

A PAREDE



No dia 21 de Agosto de 1911 a Mona Lisa foi roubada. Rezam as crónicas de então que, mal se soube do roubo, formaram-se enormes filas à entrada do Louvre, esperando-se horas para ver finalmente... a parede vazia. Tal como hoje se formam filas para ver a Mona Lisa, na altura formaram-se filas para não ver a Mona Lisa. Até Franz Kafka, chegado a Paris, três semanas depois do roubo, esperou horas na fila com o seu amigo Max Brod para não ver a Mona Lisa.

Estou a pensar no acto de não ver, não num sentido passivo, enquanto "ausência de" mas como qualquer coisa que se procura activamente. Numa situação normal, o que não se vê traduz uma limitação, falha, perda. Se não se vê uma uma coisa, é porque a visão pode estar limitada, ou porque a coisa não está no campo visual de quem a quer ver. Ora, o caso desta parede é bem diferente. O que as pessoas desejavam era precisamente poder não ver o que não está na parede, tendo sucesso por o conseguir.

Ora, eu acho imensa piada ao fenómeno mental que está na base disto. Pensar no ser humano como o único animal que se desloca a um sítio para ver uma coisa que não está lá, pensar na prodigiosa capacidade do espírito humano para procurar o nada, a ausência, o vazio. Uma bela metáfora para traduzir a propensão humana para valorizar o não acontecimento ou a ausência de densidade de uma coisa que não é. E não estou nada a pensar na diferença entre actos pequenos e espectaculares. Muitas vezes, quanto mais espectacular é uma coisa, mais vazia ela é. Como diria o Barão de Itararé, o tambor faz muito barulho mas é vazio por dentro. E é de barulho e de vazio que estamos violentamente rodeados sem darmos sequer por isso, paredes cheias de coisa nenhuma para as quais tanto se olha e tanto se grita. É caso para dizer que, nestas circunstâncias, o pior cego não é o que não quer ver mas o que quer não ver.