16 setembro, 2015

A MAÇÃ SEM NEWTON

Katia Chausheva

Não posso falar pelos outros, mas arrisco dizer que não há um único amante de fruta que eleja a maçã como seu fruto preferido. Mesmo que se trate da Pink Lady, a mais sensual e voluptuosa das maçãs. Muitos elegerão o morango, o dióspiro, a amora, a ameixa, a pêra, a laranja, o ananás, a banana, o figo, as uvas, o damasco, a manga, o pêssego, o melão, a noz, a amêndoa, a avelã ou outro qualquer. Mas alguém vai escolher a maçã, alguém diz entregar o seu reino por uma maçã? Mas, ao mesmo tempo, não há ninguém que diga com expressão de repulsa que não gosta de maçã, a mesma com que muitos dizem que não gostam de figos, dióspiros ou avelãs. A maçã deve ser, por isso, o fruto mais unânime, democrático, pacífico, consensual ao cimo da árvore. Até há pouco tempo punha em causa poder existir alguém que não gostasse de bananas. Mas o impossível aconteceu: soube de uma pessoa que não gostava de bananas. Mas maçãs? 

Todavia, sou muitas vezes injusto com a maçã. Eu sou um devorador de fruta, tenho sempre fruta em casa, incluindo maçãs. Mas são precisamente as maçãs que mais deixo apodrecer pois enquanto houver bananas, pêssegos, ameixas, uvas, melão, melancia ou figos, são as bananas, pêssegos, ameixas, uvas, melões, melancias ou os figos que marcham alegremente e a um ritmo alucinante. E as maçãs, claro, ficam para ali desprezadas, esquecidas, mesmo que o meu anjinho do lado direito diga, paciente, ao diabinho do lado esquerdo que an apple a day keeps the doctor away.

Acontece que uma mistura de distracção e desleixo me levou a ficar só com maçãs. Não havendo pois mais fruta que remédio tive eu senão comer uma. Ora, é difícil explicar o quanto me soube bem aquela maravilhosa maçã: a sua mistura de acidez e açúcar, a sua textura rija. E duvido que naquele momento houvesse algum fruto que me soubesse melhor do que aquela maçã. Aliás, fiz esse exercício: enquanto comia a maçã, pensava se me saberia melhor um dióspiro. Ora, eu sou um fanático dióspirófilo, capaz de sair de casa com frio e chuva atrás de uma caixa de maduros dióspiros para depois os comer com a fúria tresloucada de um toxicodependente. Mas não, não e não, como diria Florbela Espanca. Aquela maçã era aquela maçã, aquela maçã, aquela maçã, como diria Gertrude Steiner, a melhor peça de fruta do mundo, saborosa, plena, incondicional, o fruto inicial inteiro e limpo, como diria a Sophia de Mello Breyner, a Sophia para alguns.

Lembrei-me então de uma coisa que li há poucos dias e que metia maçãs. Um texto do bem disposto do Ortega sobre um dos meus episódios preferidos do Quixote, a história de Marcela e Crisóstomo:

«As aventuras não se encontram, não existem fora dos grandes homens: eles inventam-nas, criam-nas, forjam-nas, com o seu espírito sempre ao rubro. O 18 brumário ia ser um dia como outro qualquer, os franceses levantar-se-iam, comeriam, diriam umas frases, venderiam uns géneros e depois iriam para a cama. Mas Napoleão, ainda rapaz, sonhou uma vez com o 18 brumário, e o 18 brumário aconteceu. Uma maçã cai da árvore. Por mais viçoso que seja o fruto, será isto uma aventura? Mas Newton, o terrível inglês, acerta a passar por ali e dá-se uma aventura tão estrondosa que deixa os sábios da Terra inteira a bater os dentes».

Eu leio isto e não posso deixar de comparar a minha maçã com a maçã de Newton. Ao contrário da minha, a maçã de Newton não é uma maçã qualquer, tal como o dia 9 de Novembro de 1799 não foi um dia qualquer. São picos da aventura humana, que elevam o ser humano a um nível superior. A minha maçã é uma versão frutífera do rio da minha aldeia, como diria Caeiro. Simples, humilde, sem a grandeza de uma aventura e até a quem falta o poder extático e orgiástico dos meus sagrados dióspiros, que eu devoro como uma ménade inebriada a carne crua, ficando com a cara toda lambuzada, não de sangue fresco mas de um sumo amarelado e peganhento que seca rapidamente.

A maçã, a minha maçã, é a aurea mediocritas da fruta, um fruto humilde e sem rasto mas que tem a tranquilidade ausente de uma Lídia, que comemos (a maçã, não a Lídia), sossegadamente, silenciosamente, sem amores nem ódios, longe da volúpia carnal de um morango, de um figo, das amoras silvestres cujo sumo transforma a nossa boca numa sagrada e misteriosa gruta bucólica. É na minha maçã que está a verdadeira vida, não no cimo de uma árvore de Cambridge, à espera de um génio. Que a maçã de Newton tenha feito bom proveito à sua cabeça. Os mais simples mortais é de mortais maçãs que se alimentam.  Maçãs que ficarão sempre na sombra dos outros frutos. Mas se nós não passamos do sonho de uma sombra, como diria Píndaro, que melhor fruto pode então traduzir a essência da vida?