31 agosto, 2015

FILMES HÁ MUITOS

Irmãos Lumière | L' Arrivée d'un Train en Gare de Ciotat, 1895

"O Pátio das Cantigas" de Leonel Vieira é o filme português com o maior sucesso de bilheteira de todos os tempos. Porém, de acordo com os críticos, o seu destino não deveria ser uma sala de cinema mas o cano de esgoto. Eu não vi o filme nem isso importa. O que me traz aqui é o conflito entre dois estados dramaticamente inconciliáveis: de um lado, o gosto do cidadão comum, do outro, a análise dos críticos que se apresentam mais na condição de "cinelólogos" do que de cinéfilos, cinéfilos, no sentido mais simples da palavra: amigos do cinema

Um conflito estúpido resultante de um equívoco relacionado com o estatuto de cada expressão artística, e do qual os críticos de cinema são responsáveis. Pensemos, por exemplo, na música. Ninguém põe em causa que uma sinfonia de Mahler é musicalmente superior a uma canção para dançar num baile popular. Mas nenhum crítico musical anatematiza a canção popular por falta de sofisticação estética ou ou ser tecnicamente rudimentar. E não o faz pois sabe que a música é uma expressão que não pode expurgada do seu contexto social, tendo um valor não apenas estético mas também pragmático. A música é música e a sua circunstância. A própria música erudita tem de ser entendida nos seus diferentes contextos: uma sonata para piano não é o mesmo do que uma missa que, por sua vez, não é o mesmo que uma composição para acompanhar fogos de artifício que, por sua vez, não é o mesmo do que uma outra para dançar  num salão novecentista. Ora, a canção popular é o que é, vale o que vale, cumprindo eficazmente a sua função

Acontece que os críticos de cinema, na sua esmagadora maioria, acabam por atribuir à sua arte um estatuto que se aproxima mais de uma arte contemplativa como a pintura do que de uma socialmente contextualizada como é o caso da música. Ou seja, o filme restringido à sua condição de objecto estético, e não como objecto de entretenimento popular. Aceita-se que uma simples canção exerça eficazmente a sua função de entretenimento, por muito pobre que seja musicalmente. Já o mesmo tipo de filme, tal como o quadro de um paupérrimo pintor de província, é relegado para a condição de lixo artístico. Trata-se, porém, de um erro. O jovem que vai ver um daqueles filmes idiotas para adolescentes, o casal que se entretém num domingo à tarde a ver uma parva comédia romântica ou o macho que se senta no sofá para ver pancadaria do princípio ao fim, não querem saber de pormenores técnicos e estéticos. Apenas entreterem-se durante um par de horas, seja a rir, a chorar ou com vontade de esmurrar o vizinho do lado. E a última coisa que lhes interessa enquanto consumidores de filmes é saber o que é o expressionismo alemão, o vanguardismo russo, o arrojo técnico do Citizen Kane, a profundidade metafísica de Bergman ou complexidade psicológica das personagens de Cassavetes.

Um filme como "O Pátio das Cantigas" não é lixo. É  um filme realizado para quem está predisposto a vê-lo, com os seus próprios quadros mentais e emocionais. Os críticos têm todo o direito de não gostar do filme tal como o melómano não tem de aguentar um arraial popular. Mas o cinema, tal como a música, é de todos, nas suas diferentes circunstâncias.