28 agosto, 2015

DOUTORA, TRAGA-ME GIZ, POR FAVOR


Constantine Manos | Grécia, 1964

Num daqueles felizes momentos em que não era fácil perceber se estava sóbrio ou bêbedo, dizia Winston Churchill que o capitalismo representa uma desigual distribuição da riqueza, enquanto o socialismo representa a igual distribuição da miséria, dito espirituoso que até um filósofo de esquerda como John Rawls seria capaz de subscrever. E se este não via a igualdade como um fim em si mesmo e que deve ser alcançado incondicionalmente, isso também está longe de ver a desigualdade como um fim em si mesmo. Há filósofos que não se sentem particularmente chocados com a desigualdade. Mas não existem fanáticos da desigualdade, obcecados em procurar a desigualdade como outros procuram a igualdade nem que para isso se matem, exilem ou espoliem milhões de pessoas.

Filósofos políticos e morais de raiz anglo-saxónica como Michael Oakeshott, Karl Popper, Isaiah Berlin, John Kekes ou Bernard Williams não são fanáticos da desigualdade. Preferem antes aceitar uma ordem natural e espontânea das coisas que, não sendo perfeita nem nada que se pareça, tende a ser corrigida através do tempo e não de uma vez só como acontece por via radical e revolucionária. Daí a sua raivinha de estimação face a um racionalismo planificador que pretende promover artificialmente, através de um processo de engenharia social, uma igualdade que está muito longe da nossa natureza intrinsecamente imperfeita. O que até faz algum sentido pois mostra a experiência que se morreu mais da cura do que do mal nas poucas vezes em que se tentou criar uma sociedade perfeita, projectada em gabinetes filosóficos com o mesmo rigor técnico e racional com que engenheiros projectam uma ponte perfeita. Os resultados foram catastróficos, sobretudo para os mais desfavorecidos que, nessas sociedades, é quase toda a gente, sendo os quadros dirigentes do Partido as mais desonrosas excepções.

É com base nesta perspectiva que podemos ler uma notícia como esta. Claro que um pessimista vai dizer que as coisas estão tão más que um licenciado já é obrigado a andar a limpar uma escola. Um optimista, por sua vez, dirá que as coisas evoluíram de tal modo que as pessoas que limpam as escolas já não são as humildes e semi-analfabetas de outros tempos mas licenciados com uma dignidade social que merece ser valorizada.

Convém deitar alguma água na fervura deste Benfica/Sporting e dizer, como George Eliot, que mais do que ser pessimista ou optimista, é preferível ser melhorista. Ora, convém questionar se estamos mesmo perante um caso de "melhorismo". Sim e não. Não, porque ninguém que faz uma licenciatura tem como projecto de vida andar a fazer limpeza numa escola. Mas também é verdade que as escolas precisam de ser limpas e alguém tem de as limpar. Se essa pessoa tiver uma licenciatura em vez de ser a pessoa humilde e semi-analfabeta de outro tempo, tanto melhor. Ora, no microcosmos social que é uma escola e na sociedade em geral, essa nova hierarquia, distante de outras passadas, faz toda a diferença. Já não estamos perante um cenário em que há uns e os outros. Doutores e engenheiros de um lado, humildes e semi-analfabetos do outro. Somos todos doutores e engenheiros, cenário que não desagradaria aos próprios Marx e Lenine, implicando isso uma nova ordem social. Os salários são diferentes, sim, mas o estatuto social dos mais desfavorecidos não é o mesmo estatuto dos seus pais e avós.

Estamos longe da igualdade perfeita mas, se virmos bem, é nas imperfeitíssimas democracias liberais que os níveis de igualdade social são mais elevados e onde as classes mais desfavorecidas acabam por ser mais favorecidas, graças à riqueza tornada possível pela própria desigualdade. Portugal, sendo um país pobre, estupidamente desigual e cheio de tiques do Antigo Regime anterior à Revolução Liberal do século XIX, não é exemplo para ninguém. Mas mais vale ser um licenciado a fazer limpeza numa escola sueca, alemã, holandesa ou dinamarquesa, do que ser médico ou engenheiro nos países que se gabavam de promover a igualdade, acabando por vir dar serventia e trabalhar  na agricultura nos países onde existe uma desigual distribuição da riqueza sem que isso provoque qualquer tipo de orgulho.

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