29 agosto, 2015

ARQUEOLOGIA DO SILÊNCIO

Michael Haneke | O Laço Branco [Fotograma]

Um tom fino retiniu, o relógio Luís XV foi ferindo alegremente, vivamente, a meia-noite; depois a toada argentina do seu minuete vibrou um momento e morreu. Eça de Queirós, Os Maias


Num curto de espaço de tempo dei comigo em dois momentos sonoros que podemos considerar em vias de extinção: primeiro, acordar de madrugada com o som de um galo a cantar; depois, o som de um cão a ladrar no crepuscular silêncio de uma quinta, fazendo lembrar o «soar de um sino no ar puro» de que fala Rilke a respeito de um poeta que vive numa sossegada casa da montanha. Não é propriamente agradável acordar com o galo quando ainda devia algum tempo ao sono. Mas o romântico que há em mim cedeu, aceitando com estética benevolência esta dádiva sonora à qual já muito poucos têm acesso. O mais belo acordar que tive até hoje foi quando dormi numa pequena residencial mesmo em frente a uma escola de música. Estava eu nos braços de Morfeu quando, de repente, oiço o som de um violoncelo em processo de afinação. Não era música, apenas esboço de música. Mas aquele simples leito sonoro a romper suavemente o silêncio da manhã, bastou para sentir uma arcádica felicidade. Não mais voltei a acordar assim. Mas é possível, eu ou outros, voltar a acordar assim, seja para a semana, seja daqui a 100 anos, uma vez que daqui a 100 anos continuará a haver escolas de música e violoncelos. Mas o cantar de um galo? Quantos ouvirão daqui a 100 anos? E o som quase sobrenatural de um cão a ladrar, ao longe, fazendo contraponto com o silêncio campestre?

A arqueologia é uma ciência essencialmente visual, feita de coisas que, resistindo ao tempo, podemos tocar e ver. Mas o que dizer de sons que se foram extinguindo com o tempo? Não se pode escavar o silêncio para encontrar, soterrado, um som desaparecido. Contrariamente ao que acontece com pentes pré-históricos, vasos fenícios ou armaduras gregas, não há uma arqueologia dos sons mortos. A morte de sons, outrora vívidos e fazendo parte do espaço quotidiano das pessoas, é irreversível: de uma máquina de escrever, de um relógio de sala, das rodas de uma carroça numa estrada de terra, dos risos das mulheres do campo após uma graça brejeira, das carpideiras num velório, dos pregões, da gaita de um amolador que avisa da sua passagem, de uma bola a bater num portão de ferro que faz de baliza, uma máquina artesanal para polir talheres de prata. E quando morrerem todas as pessoas que ouviram estes sons, também estes ficarão eternamente mortos como, outrora, já ficaram mortos outros sons que não conhecemos e que morreram com as últimas pessoas que os ouviram.

Num futuro longínquo, não será difícil a um arqueólogo perceber o que seria uma máquina de escrever, uma carroça, ou um portão de ferro que faz de baliza depois de ver fotografias antigas de miúdos a jogar à bola numa rua sem carros. Mas, do mesmo modo que um historiador nunca deixa de ser cego perante coisas que estuda mas não viveu, também, em muitos aspectos, um arqueólogo está condenado a ser surdo perante objectos que vê mas não ouve, pois morreram tal como a toada argentina de um minuete na noite de uma silenciosa sala novecentista.