20 julho, 2015

SER SEXAGENÁRIO

Quentin Massys | Retrato de um Velho

Quando eu era garoto e lia no jornal que alguém tinha morrido, ficava sempre um pouco aliviado ao saber que se tratava de um sexagenário. Entre morrer uma criança, um jovem ou um sexagenário, mal por mal, que fosse o sexagenário. Sexagenário já nem era adulto, era sexagenário, uma espécie de purgatório entre a vida na Terra e o além, sendo a sua morte, por isso, bem menos dramática. Agora que já estou há algum tempo nos cinquentas, ou seja, à porta do purgatório, sei que não era bonito pensar assim embora entenda que pensasse assim. E há duas razões. Primeiro, porque a morte de uma criança ou de um jovem, será sempre intrinsecamente mais dramática do que a morte de um sexagenário. Não há volta a dar. Mas também porque um sexagenário já entrou numa fase da vida em que, embora não implique ter deixado de viver, já é uma espécie de vida para além da vida apesar de não estar morto. No fundo é mesmo assim, e esta é a parte má. Mas também não é assim tão mau quanto isso. Mais: devendo-se mesmo desejar que assim seja.

Ser sexagenário não significa estar morto antes de morrer, não significa uma vida sem felicidade, prazer ou alegria mas uma vida cuja felicidade, prazer ou alegria é diferente do que faz a felicidade, prazer ou alegria de um jovem. Claro que há pontos de felicidade, prazer e alegria comuns entre um jovem e um sexagenário: saúde, comer bem, ler, ouvir música, sexo, conversar, passear, ver o Benfica ganhar. Mas também penso que é psicológica e socialmente saudável haver claras diferenças, ou seja, um sexagenário gostar do que um jovem não gosta e não gostar do que um jovem gosta. Porquê? Precisamente por já não ser jovem e, não sendo jovem, não se pode gostar do que se gosta por ser jovem. Neste sentido, será preferível gostar do que mais se poderá gostar por não ser jovem e evitar o que mais podemos não gostar por não sermos jovens, embora gostássemos de gostar. Só que no sermos jovens ou velhos não podemos mandar mas podemos mandar no que gostamos ou não gostamos.

Depois, socialmente, é bom os jovens terem consciência de que existe um mundo e uma realidade para além da sua. Que existem referências, valores, padrões, uma sabedoria, uma experiência de vida que está para lá dessa tão grande e auto-centrada ilha que é a juventude. Uma espécie de reserva moral, intelectual, estética, comportamental que possa servir de referência a quem, um dia, irá também deixar de ser jovem. Misturar tudo, como hoje se faz cada vez mais, é que é complicado e não dá felicidade a ninguém. Saber envelhecer é uma ciência que não deve ser desperdiçada, nem pelos mais velhos nem pelos mais novos.