28 julho, 2015

POLÍTICA CIRCENSE

William Wegman

Hoje de manhã, queria estar sossegadinho a ler no sofá, mas ia sendo longamente perturbado por três cães que lá fora não paravam de ladrar. Embora não os visse, dava para os distinguir devido aos timbres de cada um. Ora, estando a leitura estragada, aproveitei então para reflectir um pouco sobre a natureza fonética e semântica do acto de ladrar, na linha do que queria dizer Saussure com a diferença entre o significado (conteúdo) e o significante ( o que se vê ou ouve) de uma palavra.

No ser humano, um aparelho fonador complexo permite produzir uma quantidade infinita de sons associados a outros tantos significados. Faça a seguinte experiência: muito devagarinho, em câmara lenta, soletre as palavras "chão", "porta", "mercado", "táxi", "gato", velocidade", concentrando-se no que faz com boca, língua, dentes e nariz. Vai reparar que para podermos distinguir palavras com significados diferentes são necessárias manobras de grande complexidade motora no aparelho fonador. E isto não passa apenas de uma pequena amostra. Ora, já no caso dos cães o que ouvi não passou de um simples fonema: ão, ão, ão. Sabemos como são inteligentes os cães. Basta comparar um cão com uma galinha. Porém, sendo inteligente, o seu aparelho fonador só lhe permite dizer: ão, ão, ão. Seja rafeiro, pastor alemão ou dálmata, grande ou pequeno, bonito ou feio, vadio ou aristocrata, o cão está programado para apenas dizer: ão, ão, ão. Puro determinismo, fatalidade, previsibilidade, repetição acrítica.

De imediato pensei no que acontece com tantos seres humanos que, embora pareçam falar, mais não fazem do que, monocordicamente, ladrar uma fraseologia sem qualquer valor cognitivo. Por exemplo, os políticos. Concedo que grande parte dos políticos, se bem que com óbvias e conhecidas excepções, seja gente inteligente. Gente com ideias, que leu umas coisas, sendo alguns até pessoas de grande cultura e capazes de alguns rasgos de pensamento. Porém, do mesmo modo que uma pessoa inteligente fica mentalmente toldada sob o efeito do álcool, dá ideia de que a política condena os seus agentes a uma certa indigência mental.

Um político enquanto político, seja de esquerda ou de direita, subordinado às exigências da táctica política, fala como se ladrasse. Já sabemos o que vai dizer consoante está no governo ou na oposição, sabendo-se que se estivesse na posição contrária, e perante a mesma realidade, dizia exactamente o contrário, ou de acordo aquilo que a sua cartilha ideológica lhe permite ladrar. O discurso político, apesar dos floreados, do fogo de artifício barroco, do rococó discursivo ou de possíveis subtilezas maneiristas, não passa de um ladrar puro e duro. Os políticos dizem o que só podem mesmo dizer, não em função de um aparelho fonador limitado, que isso é para os cães, mas de um aparelho ideológico e táctico que lhes tolda a lucidez e a inteligência natural com que vieram ao mundo. Ladram, como se ladrar fosse uma fatalidade do homo politicus. Nós, o povo, os eleitores, gostaríamos de poder ser surpreendidos com ideias e discursos livres de amarras, inspirados por um livre e espontâneo bom senso, em vez de um conjunto de sons que nada querem dizer a não ser slogans, chavões, ideias feitas, frases ocas, wishful thinking do mais simples para comover almas sensíveis e vulneráveis. Dá a ideia de que, tal como Circe transformou os companheiros de Ulisses em porcos, a política transforma os políticos em cães. Pessoas inteligentes, sim, mas, por dever partidário, condenados a ladrar. Claro que a política é uma actividade naturalmente cínica e mais o será quanto mais Realpolitik o for. Mas não precisavam de exagerar.