24 julho, 2015

PENIS LANE (IS IN MY EARS AND IN MY EYES)

Burt Glinn | Moma, 1964 
[Apreciadora de arte contemporânea analisando cientificamente o tamanho e a forma da tela]

Uma notícia como esta leva-me até ao espírito de Heraclito, o filósofo grego, considerado obscuro, que desprezava o conhecimento fútil, a inútil dispersão das ideias, o culto das irrelevâncias mentais. Chamava a isso Polimatia. Imagino, entretanto, o que pensaria Heraclito de Bazarov. Quem é Bazarov? Uma personagem do romance de Ivan Turgueniev, Pais e Filhos. Um tipo profundamente irritante, que apenas acredita na ciência que dela se aproveita para vasculhar no mundo tudo o que dele se pode retirar. Para Bazarov, dissecar uma rã é uma missão bem mais nobre e importante do que escrever poesia, amar, viver espontaneamente a vida sem ter de compreender e analisar tudo o que nos rodeia com precisão e rigor matemáticos. Ainda que Turgeniev, em conversas ou por escrito, tenha admitido sentir alguma simpatia por Bazarov, a verdade é que a sua figura é bastante caricaturada. No fundo, não passa de um pobre diabo que pensa saber tudo mas, afinal de contas, nada sabe.

Eu estou longe de ser um místico, um alumbrado barroco que, com uma certa aristocracia mental, desconfia do trabalho científico enquanto labor racional de gente vulgar. É graças à ciência que estou a escrever neste computador, aqueço uma sopa no microondas, vejo o Benfica a jogar ou dou cabo de bicharocos no meu organismo que, noutros tempos, me levariam à morte. E é graças à ciência que foi possível conhecer coisas do mundo e da vida que, de outro modo, não seria possível. Mas transformar a ciência numa religião, num modo de vida, num fim em si mesmo que nos leva a andar de joelhos em busca de mais uma irrelevante descoberta, numa espécie de doutrinação contemporânea em que os padres de outrora foram substituídos por especialistas que, em cada esquina, lá estão para nos explicar, ensinar, justificar, orientar, enfim, uma religião em cujo altar sacrificamos a produtiva energia da nossa massa cinzenta, sentindo-nos vaidosos, orgulhosos e esclarecidos por causa disso, não passa de um pesadelo que me agrada bastante poder evitar. Objectivo que, atendendo à quantidade torrencial de descobertas científicas diárias sobre tudo e sobre nada, não se torna nada fácil de conseguir.