23 julho, 2015

O SABÃO PINKERTON


O Fantasma de Canterville, conto de Oscar Wilde, lê-se num fôlego. A história é deliciosa. Uma família americana compra um castelo em Inglaterra. O castelo tem, há vários séculos, um fantasma que vai assombrando e fazendo a vida negra às várias gerações que o habitam. Desta vez, porém, a coisa correu mal. Modernas, pragmáticas, terrenas, filhas da ciência e da técnica, são as crianças americanas que perseguem o fantasma, o assustam, lhe pregam partidas, levando-o a fugir com medo e a fazer dele gato sapato. Uma das coisas que tornam o castelo ainda mais sinistro é uma indelével mancha de sangue derramado no chão da biblioteca há vários séculos. Mais concretamente, desde 1575, quando Lady Eleanore de Canterville foi assassinada pelo marido. E quem foi o sinistro marido? O actual fantasma. O suficiente para pôr a tremer qualquer pessoa só de pensar nisso. Todavia, para as crianças americanas isso resolve-se facilmente com o Sabão Pinkerton: o sabão sem rival, que apaga tudo com o máximo de eficácia.

Não é só a história que é deliciosa. O conto capta na perfeição a ruptura entre dois mundos, explicada por Max Weber com a ideia de "Desencantamento do Mundo". Neste caso, o choque, dentro daquele castelo, entre um conservador e aristocrata fantasma que suscita medo, respeito, sentimento de distância e transcendência, e o burguês sentimento moderno segundo o qual a resolução de todos os problemas pode ser encontrada na ciência, na técnica, na economia, na produção. Isto, se houver problemas, pois uma das características da modernidade positivista e tecnocrata passa precisamente pela negação de velhos problemas, velhas perplexidades, velhas barreiras, velhas emoções e velhos sentidos. Uma mancha de sangue há séculos no chão da velha biblioteca tem, naquele castelo, o mesmo sentido da cruz para um verdadeiro cristão de outrora. Uma coisa que não tem explicação mas que se aceita porque está lá e sem a qual a vida perde um sentido que se formou in illo tempore, o tempo sagrado, fonte de todos os sentidos.


O sabão Pinkerton tem explicação para tudo. O que faz uma mancha de sangue no chão de uma biblioteca? Apenas manchar o chão de uma biblioteca tal como uma mancha de gordura mancha o chão de uma cozinha. A partir do momento em que se criou o sabão Pinkerton, o sabão Pinkerton apenas sabe apagar tudo o que mancha o chão, reduzindo o mundo a uma enorme cozinha. Limpa e asseada, como deverão ser todas as cozinhas. E tornando a humanidade numa espécie de criança americana dentro de um velho castelo inglês.