13 julho, 2015

O HOMEM É A DESMEDIDA DE TODAS AS COISAS

Pieter Bruegel, o Velho | Os Peixes Grandes Comem os Pequenos (1557)

Hamlet - Um homem pode pescar com um verme que de um rei tenha comido, e comer o peixe que desse verme comeu.
Rei - Que quereis dizer com isso?
Hamlet - Nada, se não mostrar-vos como pelas vísceras de um verme pode desfilar um rei.

Acto IV, cena III


Será que dá para ilustrar esta passagem do Hamlet com este desenho do pintor flamengo? Sim, de certo modo. Mas falam de coisas diferentes. A reflexão de Hamlet é mais metafísica: pensa, biblicamente, no pó a que todos nos reduzimos independentemente da riqueza ou estatuto social. Trata-se assim o texto de Shakespeare de uma vanitas literária, lembrando que até mesmo um rei pode ficar abaixo de um verme, que está abaixo do peixe que, por sua vez, pode ser apanhado por um pobre pescador. Um pobre pescador que pode matar a fome graças a um peixe apanhado graças a um verme que se alimentou de um rei. Não se trata da ideia de uma cadeia alimentar, de uma hierarquia, de uma ordem crescente, mas de uma unidade primordial e igualitária que anula toda a multiplicidade social, económica, cultural que separa os seres humanos. As vaidades humanas serão, deste modo, absurdas perante esse murro no estômago existencial que é a consciência da verdadeira e vil condição de qualquer ser humano por muito rico e importante que seja.

No desenho de Bruegel, por sua vez, vemos um homem que abre a barriga de um peixe enorme. Do interior desse peixe saem outros mais pequenos dos quais saem outros ainda mais pequenos. Daí o conteúdo parecer mais social e político, e num registo mais moral do que o do texto. Este fala da nossa pequenez, insignificância ou antropológica irrelevância perante o absoluto da morte, seja qual for o estatuto social. Por sua vez, o desenho fala claramente de outra coisa: de peixes que comem peixes mais pequenos mas que ao mesmo tempo são comidos por peixes ainda maiores, imagem permite duas leituras.

Por um lado, trata-se de uma feroz crítica social, pondo em causa uma sociedade que desconhece ou evita contratos sociais, anulando-se todos os possíveis vínculos entre os seus membros. A gente olha para este desenho e vê um cruel estado de natureza anterior a qualquer tipo de regulação política e económica. O homem como lobo do homem mas em versão piscícola.

Mas há ainda outra possível leitura, que não necessariamente a do pintor: mostrar que o desejo desenfreado de ser maior, a ambição, a gula pelo poder, poderá revelar-se inútil uma vez que mesmo sendo maiores e maiores e maiores, haverá sempre quem seja ainda maior. O próprio peixe gigantesco não é suficientemente grande para evitar ser comido pelos pescadores. Já não se trata, neste caso, de uma leitura moral (o que devo fazer com os outros?) mas de uma leitura existencial (o que devo fazer com a minha existência, comigo próprio?). Uma leitura que me obriga a pensar até onde acho que devo crescer, até onde devo querer ir, qual o limite para parar ou se devo sequer parar. Para quê a avidez e ambição de querer ser maior se irei ficar sempre frustrado por saber que poderia ser ainda maior porque verei sempre maiores do que eu? Porém, mesmo esses maiores serão sempre mais pequenos do que outros, numa escalada sem fim. A grandeza é relativa. Um homem pode ser rico, importante, ter poder, mas haverá sempre alguém mais rico ainda, mais importante e com  mais poder. Um leão é grande ao lado de um cão mas é pequeno ao lado de um elefante. O mesmo se passa com as hierarquias sociais. Somos grandes aqui mas já seremos pequenos acolá. Não existe a grandeza absoluta. O que fazer então com isto? Este desenho de Bruegel e este texto de Shakespeare, ambos do século XVI, por razões óbvias, continuam a fazer-nos pensar sobre isso.