22 julho, 2015

LISTA NEGRA

Fritz Lang | M [Fotograma]

Faz hoje quatro anos que ocorreu o horrível massacre de Utoya. Pela amarga ironia da sua história, ainda hoje retenho a identidade de uma das vítimas: uma jovem, filha de pais iraquianos que fugiram de um país violento e inseguro para que a filha dia, ainda criança, pudesse vir a ter um futuro melhor, tendo escolhido como destino ideal, por razões óbvias, um país como a Noruega. Quando soube desta história, veio-me de imediato à cabeça o clinamen grego, o movimento aleatório dos átomos de que fala Lucrécio no De Rerum Natura. Porém, pela sua mistura de ironia e tragédia, foi de uma história oriental chamada Samarcanda que me lembrei para traduzir o destino desta jovem:

"O discípulo de um sufi de Bagdad estava um dia sentado numa estalagem quando ouviu duas figuras conversarem. Compreendeu que uma delas era o Anjo da Morte.
-Tenho várias visitas a fazer nesta cidade - disse o Anjo ao seu companheiro.
Aterrorizado, o discípulo escondeu-se até que ambos finalmente se afastaram. Para escapar à morte, aparelhou o mais rápido cavalo que encontrou e cavalgou dia e noite até Samarcanda, uma distante cidade do deserto.
Entretanto, a Morte encontrou o seu mestre, com quem conversou sobre diversos assuntos. «Onde está o teu discípulo?», perguntou a Morte.
-Suponho que está em casa a estudar, como é o seu dever - disse o sufi.
- É estranho - disse a Morte. -Tenho-o na minha lista e vou amanhã visitá-lo a Samarcanda." (retirado de Simon Blackburn, "Pense-Uma Introdução à Filosofia")


Naturalmente que fazemos todos parte da lista do Anjo da Morte, não há volta a dar, por muito que nos custe ou se adie o dia em que nos vai visitar em Samarcanda para, sorrateira, nos tocar com o dedo nas costas e assobiar. Acontece que alguns, ainda mais infelizes, revelam um destino especial que ninguém inveja: fazer parte de uma lista mais negra do que aquela que por si só já tem o dom de nos roubar a luz.