09 julho, 2015

IMACULADA BELEZA



No filme de Carol Reed, The Third Man, alguém pergunta a um assassino e traficante de droga como pode ele ser tão mau. Resposta: em Itália, durante os Bórgias, houve derramamento de sangue, terror, assassínios, mas produziram Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. Na Suíça, país que vive há 500 anos em democracia e paz, o que foi produzido? O relógio de cuco.

O assassino tem, empiricamente, razão. A Suíça é uma pasmaceira que produziu o relógio de cuco, enquanto há muito sangue a correr nas veias do brilhante e dourado renascimento. E vou ainda mais longe: Maquiavel tinha razão quando fala em valores impossíveis de serem conciliados. Por exemplo, como conciliar a humildade cristã com a ambição romana? Ou seja, como ter ao mesmo tempo sol na eira e chuva no nabal? Quer isto dizer que, muito provavelmente, se em vez do Renascimento Italiano com as suas poderosas famílias, com os seus reinos, repúblicas e ducados obcecados com o poder, a vaidade e o prestígio, tivéssemos tido o prolongamento de uma Idade Média profundamente cristã e dominada por ordens mendicantes, muito do que fez o esplendor material e artístico do Renascimento não teria chegado a existir, com muita pena dos actuais amantes da arte e dos turistas de máquina fotográfica ao pescoço que percorrem as ruas de Florença, Veneza ou Roma. Muito bem, tudo isto é empiricamente verdadeiro.

Porém, é falacioso estabelecer uma relação necessária entre a produção da beleza e a sede de poder, vaidade e ambição. É uma relação possível (como se viu) mas não uma relação necessária, como também se pode ver. Quantas obras de arte, hoje consideradas das mais belas, foram produzidas fora de um contexto como aquele sinistro que descreve o assassino? Quantas obras de arte, seja na pintura, na literatura, na música, foram produzidas por artistas pobres? E quanta beleza é produzida em sociedades democráticas sem derramamento de sangue. A democracia e a paz não produziram apenas o relógio de cuco. Produziram também Vermeer, Monet ou Chagal, a música de Bach, Satie, Ravel ou os romances de Eça.


Se chover, o chão fica molhado. Mas o chão pode ficar igualmente molhado sem ser preciso chover. Os modos da beleza se exprimir são múltiplos. O sangrento Renascimento Italiano foi apenas um desses modos. Mas há beleza para além do Renascimento Italiano, a beleza jamais poderia estar dependente de um qualquer Renascimento Italiano. A procura da beleza é um processo natural do ser humano, seja na Itália renascentista com os seus palácios e gigantescas esculturas de pedra, seja numa aldeia africana nas qual se esculpe a madeira no tranquilo silêncio de um pôr do sol.