17 julho, 2015

HUMANOS, SIMPLESMENTE HUMANOS


Vale a pena ler, quem gosta de pintura holandesa, Éloge du Quotiden, de Todorov. Todo ele é muito interessante mas penso agora apenas num capítulo intitulado "L'indécision morale", onde pega em diversas pinturas de De Hooch para abordar o modo como o pintor holandês aborda questões morais. Olhemos para as três pinturas que aqui trago. 

As duas primeiras são formalmente semelhantes, só que, bem analisadas, revelam situações completamente diferentes. Na primeira há uma certa sugestão de estarmos perante uma situação moralmente reprovável. Começa, desde logo, no nome: "La Buveuse". Uma mulher que é mostrada de frente, numa posição de grande descontracção perante dois homens, um dos quais estimula o acto de beber. Depois, há ainda a outra mulher, claramente uma alcoviteira que ajuda a compor um quadro sobre um relacionamento obscuro que aqui se desenha.

Na segunda e terceira, pelo contrário, continuamos a ter uma mulher que bebe com dois homens mas nos quais o efeito da sugestão é completamente diferente. Na segunda, a mulher está de costas, numa posição, portanto, de grande discrição. Depois, não está numa posição flácida e passiva como a mulher anterior, completamente à mercê do desejo dos homens. Está de pé, erecta, revelando uma dignidade que a mulher anterior está muito longe de poder assumir. E a outra mulher? Contrariamente à alcoviteira do anterior, está completamente desligada da cena principal, absorvida, enquanto criada, numa tarefa doméstica. Mas falta ainda a cereja em cima do bolo: os dois quadros dentro dos próprios quadros. No primeiro, temos uma imagem de Cristo com a mulher adúltera. No segundo, por sua vez, uma imagem que representa a Educação da Virgem. Uma enorme subtileza que contribui muito para a compreensão destes dois quadros formalmente tão semelhantes.

Finalmente, o terceiro, por razões óbvias, está muito mais próximo do segundo do que do primeiro. Uma cena doméstica, perfeitamente pueril, reforçada com a presença da criança, certamente sua filha, mas ainda pela postura discreta e circunspecta das personagens.

Ora, onde pretendo eu chegar com isto? Ao facto de estarmos perante um pintor que, no primeiro quadro, trata de um assunto moralmente sensível, mostrando uma cena doméstica certamente reprovável, mas fazendo-o com a mesma serenidade e quase neutralidade moral com que aborda os dois seguintes. Ou seja, não há uma aqui qualquer deformação física das personagens associadas ao pecado, não há um sinistro ambiente de perdição, não há cores ou uma luminosidade que remeta para um contexto "tenebrista". A chave moral do quadro está noutro quadro que se encontra algo despercebido.

Mais uma vez, voltamos a encontrar na velha pintura holandesa um mundo muito longe de uma doentia e mórbida moralidade católica, de uma moralidade imposta verticalmente por um clero sexualmente traumatizado, de uma sexualidade tantas vezes sublimada num barroco misticismo literário. De Hooch não deixa de demarcar os diferentes cenários. Mas fá-lo sem amaldiçoar, sem anatematizar, sem lançar línguas de fogo sobre repelentes pecadores de costas voltadas para o conturbado e imaculado céu de uma pintura lugubremente moralizadora. Pelo contrário, temos apenas cenas domésticas. Umas mais duvidosas, outras mais aceitáveis. Todas elas, no entanto, fazendo parte de um sereno quotidiano do qual é feita a substância dos dias de gente humana, simplesmente humana.