02 julho, 2015

FABRICO PRÓPRIO



Jean Jacques André | Esculturas


Um dos grandes mistérios que me inquietam a alma não está escondido num lugar recôndito do universo ou nas profundezas da minha alma atormentada. Está por aí numa rua perto de nós, naquelas pastelarias que anunciam com orgulho e vaidade que têm fabrico próprio.

O conceito de fabrico próprio é metafísica pura e dura e a sua compreensão um osso duro de roer. Fica-se com a ideia de que essas pastelarias têm uma enorme vantagem face às que não têm fabrico próprio. Ora, é aqui que me sinto confuso. Imaginemos um bolo de arroz numa pastelaria que não tenha fabrico próprio. Como não tem fabrico próprio, não foi fabricado naquela pastelaria. Ora, eu, como cliente, poderia ficar desconfiado. Só que aquele bolo foi mesmo fabricado. E se foi fabricado serei obrigado a pensar que a fábrica que o fez tem fabrico próprio. Então, e se eu comprasse o bolo na fábrica (que tem venda directa ao público) em vez de o fazer na pastelaria que não tem fabrico próprio? Será que o bolo fabricado na fábrica com fabrico próprio é diferente do bolo vendido numa pastelaria sem fabrico próprio mas que foi feito na fábrica com fabrico próprio? O mesmo bolo não é o mesmo bolo na fábrica e na pastelaria? Nós pomos lado a lado um bolo de arroz comprado na pastelaria que tem fabrico próprio com outro bolo de arroz comprado na pastelaria que não tem fabrico próprio mas que foi comprado na outra que tem fabrico próprio. Será que são dois bolos diferentes?

Imaginemos que os bolos pensavam e tinham sentimentos. Que amavam, sofriam, tinham desejos, consciência de si, enfim, que liam o Cioran e o Vasco Pulido Valente, ouviam os Joy Division antes de irem para a montra da pastelaria. Será que um bolo vendido numa pastelaria sem fabrico próprio teria mais razões para uma crise existencial do que um outro vendido na montra de uma pastelaria com fabrico próprio? Mas como assim? São bolos iguais. Com o mesmo sabor, textura, cor, cozedura. É tudo o mesmo. Como pode o mesmo ser um outro? Mas que raio de relação dialéctica será esta entre a mesmidade e a alteridade? 
A metafísica é um osso duro de roer. E há muita pastelaria que nada contribui para ajudar a roê-lo.