11 julho, 2015

ESQUERDA NÃO PRATICANTE

Marc Ribou

Costuma-se dizer que a diferença entre esquerda e direita é um problema e obsessão de gente de esquerda. Não sei se assim é mas faz todo o sentido que assim seja, uma vez que ser de esquerda, à partida, representa um desafio político e moral que implicará uma maior exigência consigo mesmo e, por isso, um maior auto-conhecimento.

De um ponto de vista mental, uma das características principais de muita gente de esquerda é um certo sincretismo que é próprio do pensamento selvagem estudado pela Antropologia, um pensamento incapaz de distinguir o natural do sobrenatural, a realidade da imaginação. O mesmo acontece com uma criança de 5 anos que depois de ouvir contar uma história sobre o lobo mau tem medo de ficar sozinha com medo que o lobo apareça. Quer dizer, basta pensar para ser. Daí uma criança facilmente imaginar que é o super-homem, o homem-aranha ou a Barbie a ir às compras. A criança vê-se assim só porque imaginou que é assim e, enquanto brinca, acredita que é assim. Muita gente de esquerda, funciona assim. Basta pensar ou desejar ser de esquerda para acreditar que é de esquerda. Tal como a criança que veste a roupa  do super-homem, também o tipo de esquerda acredita que basta vestir-se como deve vestir uma pessoa de esquerda, votar num partido de esquerda de 4 em 4 anos, ser militante de um partido de esquerda, participar em manifestações de esquerda e falar como alguém de esquerda, tipo duas horas num restaurante a discutir o problema da Palestina ou a defender os gregos do papão neo-liberal, ou andar com um livro do Tony Judt debaixo do braço ou fazer várias citações do Chomsky perante uma mulher bonita, também de esquerda, que seja suficientemente impressionável para que horas depois esteja deitada na mesma cama do homem de esquerda.

Só que isto não é bem assim. Não basta pensar, por ser desejável ou se achar superior ser de esquerda, para se ser de esquerda. É preciso praticar. Ou se pratica, e então poder-se-á dizer que se é de esquerda, ou não se pratica e, neste caso, vislumbrar o que há de esquerda nessa pessoa será tão complicado como ver Braga por um canudo. Não existe o conceito de esquerda não-praticante do mesmo modo que é um absurdo dizer que se é católico não-praticante. Um absurdo e uma estupidez. O que distingue um católico de um protestante ou ortodoxo comum não é a fé num mesmo Deus mas o modo como vive a sua religião. É a acção.  Ora, alguém só pode dizer que é de esquerda se as suas acções forem de esquerda. Quem é mais de esquerda? Um tipo do PSD que é presidente de uma junta de freguesia de uma aldeia do distrito de Viseu, que dá grande parte do seu tempo e paciência para melhorar a qualidade de vida das pessoas da sua terra, ou um tipo que acredita ser de esquerda só porque vota num partido de esquerda, vai a manifestações de esquerda, veste-se de esquerda e passa duas horas num restaurante a defender os gregos?

Não é a palrar na mesa do restaurante e do café, em catárticas manifs, a ler livros de esquerda e ver filmes de esquerda e a ter ideias de esquerda, que se é esquerda. Ser de esquerda começa na própria alma e nas acções mais imediatas, a começar em casa, com os que estão mais próximos, não em vãs abstracções, desejos, emoções e intenções sem consequências. Talvez a grande preocupação sobra a diferença entre esquerda e direita seja de gente de esquerda, por se acreditar que é no campo das palavras e da imaginação que o mundo se define. Como uma criança de 5 anos.