08 julho, 2015

CERA NOS OUVIDOS

Inge Morath | MM durante a rodagem de Os Inadaptados, 1960

É difícil não gostar de música, uma harmoniosa conjugação de sons que provoca uma imediata e espontânea sensação de prazer. Ouvir música não dá trabalho nem implica esforço ou aprendizagem, é assim um bocadinho como a espontânea harmonia que existe entre a flor e a abelha. Quando passo a Marcha Turca nas aulas, vejo deleitosos sorrisos e cabeças a abanar. Eu não percebo nada de música, eles não percebem também, mas o pessoal gosta e sente prazer em ouvir. É como se estivessem a comer um bom gelado italiano pelos ouvidos. 

Mas uma coisa é gostar da Marcha Turca apenas porque somos humanos, estamos  vivos, temos um sistema nervoso central, não somos surdos e, por mero acaso, vem-nos parar aos ouvidos a Marcha Turca, outra coisa é procurar activamente a Marcha Turca para intencionalmente a ouvir, porque é isso que desejamos ouvir, conhecer o seu compositor e outras coisas a seu respeito
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A vida também é um bocadinho assim. Não é precisa qualquer ciência para saber viver, ao contrário do que actualmente parece quando entramos numa livraria, cheias que estão de livros que ensinam isto e aquilo sobre como viver. Todos nós gostamos naturalmente de viver do mesmo modo que gostamos naturalmente de música. Se não gostássemos, deixaríamos de o fazer, do mesmo modo que não desejamos comer uma coisa de que não gostamos ou ouvir uma música que achemos horrível. É por isso que algumas pessoas deixam intencionalmente de viver, é como se passassem a vida a ouvir uma música que não suportam. Não conseguem gostar de viver e não suportam a ideia de viver, precisamente porque gostariam de gostar de viver como quem gostaria de gostar da música da qual não conseguem gostar.

Mas uma coisa é querer viver, estar vivo, bastando para isso existir e respirar, outra coisa é procurar a vida como quem procura uma coisa valiosa. Uma coisa é ouvir a Marcha Turca no carro quando se engarrafa diariamente no trânsito porque isso a distrai e ajuda a passar o tempo: dá prazer, sim, mas um prazer imediato, efémero, passageiro e sem consistência. Ouve-se, por mero acaso, para se esquecer logo de seguida. Outra coisa é ser melómano, o que toda a gente deveria tentar ser em relação à vida: ouvi-la com mais intencionalidade, sabedoria e sensibilidade para poder ouvi-la melhor. E não temos de ser grandes maestros ou grandes intérpretes para poder usufruir da música. Basta apurar os ouvidos e dar-lhe mais atenção para poder ouvi-la melhor. Infelizmente, a cera nos ouvidos forma-se muito facilmente desde que nascemos e não é nada fácil de tirar.