27 julho, 2015

ANTEU E O TELEJORNAL

Jonathan Miller | Alice in Wonderland, 1966

Lembrei-me de Anteu, a célebre personagem mitológica que era invencível se em contacto com o chão mas, tal como Sansão sem cabelo, absolutamente fragilizado se o levantassem. Foi assim que Hércules o venceu. Conseguiu levantá-lo e, a partir desse momento, já não mais reagiu.

Lembrei-me de Anteu por causa do equilíbrio que deve existir entre uma relação de proximidade e de distância  com a realidade. Para sobrevivermos como seres sociais ou animais políticos, precisamos, como Anteu, de viver com os pés bem assentes no chão, do nosso banho diário de realidade. Mas um excesso de realidade também pode ser alienante. Houve uma altura em que a primeira coisa que fazia depois de acordar era ouvir as notícias na rádio. E via vários telejornais ao longo do dia, debates, documentários, reportagens. Tudo sobre a realidade. Entretanto, aborreci-me com tanta realidade, com um excesso de realidade penetrando abusivamente na minha esfera pessoal e privada. Senti que ia deixando de ser eu para me transformar numa espécie de  amorfa peça que, juntamente com outras amorfas peças, formavam esse todo chamado realidade.

Realidade? A realidade é "isto" como podia ser outra coisa qualquer. A realidade, no fundo, não passa de uma sucessão de factos que existem devido a um conjunto de finíssimos fios, quase invisiveis, cujo  complexo entrelaçamento dá origem ao que se vê diariamente nos telejornais, formando aquela espuma a que chamamos "realidade". Ora, eu não quero ser escravo da realidade. Porque, no fundo, a realidade não é assim tão a realidade quanto poderemos pensar. O que não aconteceu foi quase tão real como o que aconteceu. Como teria sido a História se Napoleão não tivesse nascido? Como seria hoje Portugal se Salazar tivesse caído da cadeira 20 anos antes? E se...? Eu não quero ser escravo daquela subatómica possibilidade que, por uma conjunção de acasos, conseguiu tornar-se na "realidade" que tenho perante os meus olhos e ouvidos.

É por isso que precisamos de uma terapia para o excesso de realidade, como um esquizofrénico para a irrealidade em que se encontra mergulhado. Enquanto este precisa de um tratamento para se poder adaptar convenientemente à realidade, nós precisamos do nosso banho de irrealidade. De silêncio, literatura, música, pintura, mitologia, religião, fantasia, nonsense. A língua francesa consegue um jogo engraçado que em português não é possível: rêve e rêverie. Sonho e devaneio. Precisamos tanto de sonhar a dormir como de sonhar acordados. Sair da realidade é tão importante como estar na realidade. Seja através de um passeio pela praia, numa montanha, perante um quadro, um filme, a leitura de uma poema ou a audição de uma sinfonia. Ou simplesmente perante o silêncio de uma sala no lusco-fusco de um dia de Inverno. Ao contrário de Anteu, não há, neste caso, o perigo de ficarmos fragilizados por não estarmos com os pés complemente assentes no chão. Bem pelo contrário, podemos ficar mais parecidos com Hércules para poderemos enfrentar os diferentes combates da vida.

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