14 julho, 2015

A ELEGÂNCIA DA MORAL

Frances Benjamin Johnston, 1899

Houve tempos em que, ouvindo falar de moral, via logo Moisés, de olhar fulminante, a descer o Monte Sinai com as tábuas dos Mandamentos para as espetar na cabeça dos que se divertiam a adorar o bezerro de oiro. A minha imagem de Deus era a de um ser rabugento a atirar para as ígneas profundezas do Inferno todos os ímpios que ligavam tanto aos 10 mandamentos como os nossos alunos aos clássicos da Literatura. O iracundo dedo de Deus que escreveu aquelas tábuas pesa mais de uma tonelada sobre os frágeis músculos das nossas consciências. Uma das ideias que ainda hoje guardamos, induzida pelas sementes míticas de onde provêm as grandes referências morais da humanidade, é a de que a moral está associada a grandes gestos ou a coisas muito dramáticas. Não é por acaso que os santos são um exemplo de perfeição moral. Homens e mulheres que trocaram as riquezas do mundo pelo deserto. Santos e santas de olhar místico, lambendo as chagas de leprosos com o mesmo prazer lúbrico com que eu como um Toblerone e que em vez de devaneios eróticos perante uns generosos seios ou os bíceps de um viril e peludo guerreiro, padeciam de tremores extáticos provocados pelo angélico bater de asas do Espírito Santo. 

Acho, todavia, muito sinceramente, que não são precisas situações de grandeza e espectacularidade para se observar a dimensão moral de um ser humano, bastando muitas vezes banais situações do dia-a-dia. Há tempos, estava na bicha do supermercado e vejo a meu lado um bebé ao colo de uma jovem mãe que deixa cair um brinquedo para o chão. Quando a mãe se prepara para se baixar, eu antecipo-me e apanho o brinquedo. Ela recebe-o da minha mão e vira de imediato a cara, sem um “obrigado” ou um sorrizinho de gratidão. Dias depois, eu ia a sair de um edifício e atrás de mim vinha um casal jovem. Eu abro a porta e, em vez de sair eu primeiro, o que era normal pois ia à frente, fico a agarrá-la para lhes dar passagem. Eles passam por mim, saem, e nem sequer para mim olham. 

Ora, isto para mim é imoral. Nós estamos habituados a distinguir o que é moral do que é simples cortesia e boa educação. Podemos achar que uma certa pessoa não é um exemplo de boa educação, sem que isso faça dela uma pessoa imoral. Mas não é bem assim. Se eu dou passagem a uma pessoa numa porta, por que razão o faço? Porque a respeito como pessoa. Não a conheço, mas é uma pessoa e isso basta-me para que a minha acção vá no sentido de a valorizar. Mostro que essa pessoa, apesar de desconhecida, não me é indiferente, transparente, invisível. A etiqueta é uma mera formalidade. Mas a cortesia, a simpatia, a boa educação, pelo contrário, têm um enorme valor moral. Traduzem o valor que as pessoas têm umas para as outras. Quando, num café, eu pago e a empregada nem sequer me dá um sorriso ou agradece, está a mostrar-me que, para ela, eu estar ali ou não estar é o mesmo. Que eu, como pessoa, lhe sou absolutamente indiferente apesar de ser com o meu dinheiro que a ajudo a pagar a renda de casa e a comida que lhe mata a fome. A etiqueta, no fundo, não passa de uma simples moral da elegância. Mas do que eu estou aqui a falar é da própria elegância da moral. A moral não é só boa. Como diria Platão, é também bonita.