16 junho, 2015

REGRESSO AO FUTURO


«Oh lá, lá. Finalmente temos homem. Ontem ouvi no programa da Primeira Página da TV, o novo líder do PS, António Guterres. Fiquei imensamente bem impressionado. Directo, seguro, sensato. Deve ter-se acabado enfim, a geração dos retóricos do Direito. É a era dos técnicos, dos da linguagem científica, dos da régua e esquadro. Esse Guterres é formado em engenharia e isso já diz muito. [...] Não há dúvida, temos homem». Vergílio Ferreira, Conta-Corrente

Não sei bem, mas será talvez o meu gosto por cemitérios, fantasmas, almas do outro mundo, que me levam a ler o diário que Vergílio Ferreira escreveu ao longo de muitos anos. Não é o romancista que lá procuro. Se quisesse o romancista, leria os seus romances, os quais, aliás, já ninguém lê, quando, ainda não há muitos anos, era um dos escritores portugueses mais lidos. Também não é o pensador que procuro, uma vez que é também nos seus romances que ele verdadeiramente pensa. O que me atrai no diário de Vergílio é a cusquice, a bisbilhotice, as birras pessoais e institucionais, as emoções, os desejos, as raivas de estimação, as esperanças. Não por um espírito de cusquice ou bisbilhotice que, de todo, não tenho, mas pela fantasmagoria que lhe é inerente. Não me interessa minimamente o que pensa Vergílio Ferreira sobre Portugal, os portugueses, os políticos, os críticos, os colegas escritores. Tal como Hegel se divertia a pensar o pensamento de Deus sobre o mundo, o que é para mim engraçado é ver Vergílio Ferreira a pensar sobre factos efémeros que já morreram, a começar por ele próprio, quando ainda estão a nascer, como é o caso deste novo líder do Partido Socialista e que veio a ser Primeiro-Ministro da pátria. Factos efémeros, espuma dos dias, futilidades, insignificâncias, pormenores completamente perdidos na escura arca da História.

Não tem piada nenhuma olhar hoje para trás e pensar, a posteriori, que com Guterres não tivemos homem. Claro que não tivemos, isso toda a gente sabe, em Portugal é quase uma redundância histórica não haver homemEste lampejo de emoção a respeito de Guterres, vindo de um pessimista tão irascível e maldisposto como Vergílio, só mostra ainda mais como, em Portugal, pensar na política, a posteriori, é, por inerência, um exercício penoso e doloroso, pois é assistir à inevitabilidade das ruínas pela consciência que temos das causas que a elas levaram. 

Fascinante é poder entrar na genésica e inocente consciência do que parece ter nascido para vicejar e perdurar, sem a possibilidade ainda de sequer vislumbrar a sua derrocada. Ver a ascensão sem qualquer sinal da queda: Adão a sair do barro, a Revolução Francesa ou Bolchevique sem o terror de ambas, Carlos da Maia e Maria Eduarda ainda na Toca, Guterres, ainda impante, subindo ao palanque do poder. Temos homem? Claro que temos: amparado por outros dois, prenúncio de mais um governo caído de um país que parece condenado a não se levantar.