26 junho, 2015

PÍNDARO REVISITADO

Ivan Terestchenko

Se o mundo estivesse para acabar e quiséssemos escolher várias figuras históricas que melhor representem a humanidade para sobre elas deixar informações guardadas em micro-filmes para futuro conhecimento de outras civilizações, quem seriam os eleitos? Na minha cabeça há sempre dois nomes que aparecem como os mais fortes candidatos: Aristóteles e Leonardo da Vinci. Caí na tentação de os eleger por tomar como ponto de partida parâmetros como genialidade, inteligência ou, no caso específico de Leonardo, a ideia de um ser humano completo. 

Trata-se, porém, de uma escolha falaciosa. Será que se tratam de parâmetros que representam verdadeiramente a humanidade? Será mesmo isso que nos identifica? Não, muito longe disso. Todos os génios são humanos mas há muito poucos humanos que sejam génios. Há seres humanos geniais, completos, inteligentes, sensatos, mas isso está longe de significar que o ser humano seja fundamentalmente isso. Achei por isso que não é fácil encontrar, empiricamente falando, seres humano que representem o ser humano aos olhos de outra civilização, temendo ao mesmo tempo levar o nosso extra-terrestre a confundir a existência empírica de um ser humano específico com a própria ideia pura de humanidade. 

Daí achar preferível recorrer ao poder arquetípico da ficção, à possibilidade de traduzir a realidade concreta mas sem qualquer compromisso empírico com ela. Quer dizer, estar dentro dela mas ao mesmo tempo fora. E isso pode ser feito através da mitologia, da literatura, do cinema, da pintura, da ópera. As escolhas passam então a ser imensas: Ulisses? Antígona? Ícaro? Narciso? Prometeu? Quixote? Hamlet? D. Giovanni? Fausto? Ivan Ilitch? Dr Jekyll? Bovary? Catrefadas de gente. Não que cada uma destas  figura, individualmente consideradas, possa traduzir o que o ser humano é. Nem todos os seres humanos viajaram e combateram como Ulisses, se sentiram dilacerados como Antígona, ficaram com o cérebro seco como Quixote e nem todos são engatatões como D. Giovanni, ávidos de poder como Macbeth. Mas há em todos eles categorias que podemos aceitar como condensações do que é ser humano, que traduzam genericamente a condição humana: o desejo, o lar, a cisão interior, a ambição, a angústia, a curiosidade, a culpa, etc.


Objectar-se-á, dizendo que não passam de ficções, personagens imaginadas por génios criadores e não pessoas verdadeiras, de carne e osso, fazendo-se com essas escolhas uma espécie de batota, ludibriando os pobres extra-terrestres que nos iriam futuramente conhecer. Mas também é verdade que se pensar no tempo em termos cosmológicos, em milhares de milhões de anos, o período de tempo em que terá existido a Terra e, nessa Terra, uma espécie chamada humana, serei obrigado a pensar no que é o homem senão um mero vestígio ficcional, sonho de um sonho, sombra de uma sombra, saída da imaginação de um génio que tem tanto de maligno como de santo.