11 junho, 2015

O NOME DELA

Andrea Solari

Estava a registar as classificações dos alunos quando me apercebo de que tenho uma aluna chamada Salomé Baptista. Desde Setembro que sei que a Salomé é Baptista, como sei que o Bernardo é Silva e a Carolina é Monteiro. O que aconteceu agora foi uma espécie de desocultação de uma realidade cuja evidência, apesar de chapada mesmo à frente dos meus olhos, estava coberta por um manto de distracção. Uma Salomé Baptista é muito mais do que um João Silva, um Luís Antunes ou uma Ana Ferreira: é uma hecatombe onomástica. Há um conto muito engraçado de Edgar Allan Poe chamado A Carta Roubada em que a polícia recorre aos mais sofisticados e minuciosos métodos para, na calada da noite, entrar dentro de uma casa em busca de uma importante carta supostamente roubada pelo seu inquilino. Missão completamente falhada. Veio entretanto a saber-se que estava mesmo à frente dos olhos de todos, tendo os dos polícias passado por ela diversas vezes sem a ver. Ora, foi mais ou menos isto que aconteceu agora com o nome da minha aluna, do qual só agora me apercebi.

Esta espantosa revelação levou-me de novo a questionar a relação entre a linguagem e as coisas por si nomeadas, isto é, saber se se trata de uma relação natural ou convencional. No caso dos nomes das pessoas é claramente convencional. Mas se não o fosse? E se os nomes das pessoas traduzissem literalmente aspectos relevantes delas? Isso faria com que, por exemplo, um homem chamado Valente tivesse perfil para militar ou bombeiro. Uma pessoa cujo apelido fosse Oliveira, gostaria mais de azeite do que as outras, Durão Barroso teria um feitio irascível, Marinho Pinto, qualquer coisa de ave aquática, José Sócrates seria um filósofo dedicado aos assuntos do espírito e tendo uma relação despojada com o dinheiro e os bens materiais, Passos Coelho um atleta de velocidade, Paulo Portas alguém que tanto pode estar para entrar como para sair, sobretudo em governos de coligação, Rui Rio, alguém com uma personalidade fluida e Angela Merkel uma inocente e caridosa freira. 

Fosse assim e tudo ocorreria dentro de uma certa normalidade e razoabilidade, sendo cada um o que é em função dos seus nomes. Mas Salomé Baptista?  Fossem os nomes para levar mesmo a sério, o que seria da sanidade mental de uma mulher chamada Salomé Baptista? Em vez da adorável e simpática menina de quem todos gostam, seria certamente uma mulher desequilibrada, terrivelmente dividida, com uma personalidade disfuncional. Um caso muito mais grave do que o de Jekyll perante Mr. Hyde, de Dorian Gray face ao seu próprio retrato, de Ricardo Reis perante Álvaro de Campos. Psicologicamente tão paradoxal como Deus e o Diabo serem uma mesma identidade.

É caso para dizer neste caso, como no final de O Nome da Rosa, Stat Rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus, embora adaptado ao nome da minha simpática aluna. Que a Salomé envelheça serena e feliz graças a um nome que não é mais do que um nome.