29 junho, 2015

O MUNDO COMO VONTADE E MUITA REPRESENTAÇÃO


Num livrinho chamado Investigações Filosóficas sobre a Essência da Liberdade Humana, Friedrich Schelling, o companheiro de Hegel e Hölderlin no seminário de Tübingen, chega à conclusão de que no mundo só aparentemente tudo é regra, ordem e forma. Bem pelo contrário, o que temos é uma realidade originária e sem regra que irrompe na superfície do mundo sem ser tida nem achada.

Ainda antes de Schopenhauer e de Freud, talvez isto ajude a perceber melhor o que mais tarde quer dizer Alma Mahler quando, no seu diário, escreve que um criador é tão fácil de seduzir quanto um canalizador. O que me faz pensar que, para além da morte, haverá poucas coisas tão democráticas como o amor e a paixão. Graças ao seu currículo amoroso, Alma sabia do que falava. Perante a mulher sedutora não há habilitações literárias, formação cultural, intelectos superiores, genialidades artísticas que resistam. Apenas criaturas rendidas, rastejantes e cegas como toupeiras.

Um criador apaixonado não é um criador mas uma simples criatura apaixonada. Pronto, é verdade que nos diferentes palcos da existência humana, cada pessoa sabe muito bem o papel que deve representar, decorando-o até à exaustão. Quando, porém, os holofotes se apagam e o texto do escritor, a pauta do compositor, o esboço do pintor ou do arquitecto, o molde do escultor, são guardados dentro da gaveta ou tapados por um pano, entra-se, por fim, como diria o amigo Hegel no prefácio da Fenomenologia do Espírito, na cósmica e obscura noite de Homero e Hesíodo em que todos os gatos são pardos.