04 junho, 2015

O MERCEDES E O PEÃO

Federico Fellini | O Navio [fotograma]

Ontem, estava a preparar-me para atravessar uma passadeira quando um condutor ignorou por completo a minha desprezível existência de peão. Nada a que eu, peão por militância e convicção, não esteja habituado nos meu diário percurso entre a casa e o trabalho. Só que desta vez ocorreu um processo interessante nos mecanismos automáticos da minha mente. Tratando-se de um carro de alta cilindrada, de imediato inferi que o desprezo do condutor resultou de alguém ufano da sua posição social. Eis o suficiente para logo o transformar numa criatura arrogante, vaidosa, egoísta, com o típico complexo de superioridade de um ego insuflado, começando por isso a sentir-me um anarquista russo do século XIX com vontade de estrafegar o pescoço de todos os condutores ricos que se julgam donos das ruas e que olham para os pobres peões como um senhor feudal para o servo da gleba. 

Mas de repente senti o meu anjinho do lado direito a despejar água sobre o fogo revolucionário do diabinho do lado esquerdo. Caramba, eu não sou rico mas nada tenho contra os ricos. Como Olof Palm, não acredito que é com os ricos que se deve acabar mas com os pobres. Nem acredito naquela parvoíce de achar que são precisos não sei quantos pobres para fazer um rico. Pelo contrário, acredito que os ricos fazem muita falta aos pobres e que um dos problemas de Portugal será mesmo a sua escassez e a falta de um sistema que distribua justamente a riqueza, como sucede nos países mais desenvolvidos da Europa.

Pronto, sei que fui irracional mas não houve volta a dar, somos mesmo assim. Captamos um pontinho numa pessoa e somos logo levados a relacioná-lo com outros, sem que tenha de haver uma ligação entre eles. Se um condutor de um Fiat Uno a cair aos bocados não pára na passadeira, penso apenas que lhe falta civismo. Mas se for um carro de luxo já associo isso ao facto de o condutor ser rico. Acontece que ao dono do carro de luxo pode apenas faltar o mesmo civismo que falta ao dono do Fiat Uno, nada tendo que ver com a sua conta bancária. E por que não admitir que até pode ser a pessoa mais cívica do mundo mas vai simplesmente distraído ou, indo depressa, não teve tempo para travar? A mim já me aconteceu não parar numa passadeira por esses motivos, e do mesmo modo que me senti desconfortável por isso, por que não presumir ter ele sentido o mesmo?

O meu anjinho venceu e fiquei em paz com a minha consciência. Mas a experiência fez-me pensar no estatuto de ser rico e como isso deve ser gerido moralmente. Pode parecer estranho o que vou dizer mas acredito sinceramente nisso: uma pessoa rica tem mais responsabilidades morais e na gestão pública da sua personalidade do que uma pessoa pobre. É exactamente pelo facto de o dinheiro estar muitas vezes associado à vaidade, à presunção, à ganância, à arrogância, que uma pessoa que o possui em abundância deverá ter uma atitude de hiper-correcção no que faz ou diz. Se há atitude que fica bem numa pessoa rica é precisamente a que revela humildade, discrição, simpatia e respeito, sobretudo por aqueles que estão num plano socialmente inferior. Entendo que tal não aconteça num pato-bravo ou num novo rico que o é à custa de atropelar os interesses de outros. Está-lhe na massa do sangue. O verdadeiro aristocrata, pelo contrário, reconhece-se na nobreza dos seus actos, os quais podem ser aferidos a partir do que dizia Séneca nas Cartas a Lucílio: «Um espírito superior é capaz de utilizar utensílios de barro como se fossem de prata, mas não é inferior aquele que usa os de prata como se fossem de barro». E, acrescentando eu, respeitando de igual modo todos aqueles que se sentam, tanto à sua mesa como à sua volta, para comer.

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