30 junho, 2015

O DESAPELO DO APELIDO

Louis Faurer

Quando fui para a universidade, estava indeciso entre Filosofia e Direito. Fui para Filosofia. Se tivesse ido para Direito, muito provavelmente seria hoje advogado. Entretanto, dei comigo a pensar qual seria o meu "nome oficial" se fosse advogado. O meu nome completo é José Ricardo Correia Costa. Algumas pessoas tratam-me por Zé, outras por Ricardo, outras por Zé Ricardo. Na minha escola sou o professor José Ricardo mas há funcionárias que me tratam por professor Zé Ricardo, uma informalidade que não me desagrada.

E se eu fosse advogado? Quando estava a pensar nisso reparei na quantidade de figuras públicas, de políticos a advogados, passando por médicos, cientistas, arquitectos e outros, cuja identidade é feita apenas com os apelidos. Rapidamente, ao calhas: Passos Coelho, Pinto da Costa, Salgado Zenha, Sisa Vieira, Santana Lopes, Sá Carneiro, Magalhães Mota, Borges de Macedo, Freitas do Amaral, Pinto Balsemão, Vaz Pinto, Silva Pereira, Santos Silva, Graça Dias, Teixeira dos Santos, Dias Loureiro, Torres Couto, Gonçalves Pereira, Lopes Cardoso, Carvalho da Silva, Ferraz da Costa, Souto Moura, Ferro Rodrigues, Proença de Carvalho, Durão Barroso, Ramos Horta, Cavaco Silva, Poiares Maduro, Gentil Martins, Aguiar Branco, Ferreira do Amaral, Mota Soares, Carrilho da Graça e centenas de outros. Pus-me igualmente a pensar nos nomes de médicos e advogados da velha guarda, aqui de Torres Novas, concluindo que predomina igualmente o apelido: Trincão Marques, Adrião Monteiro, Pena dos Reis, Pires Bento, Vaz Teixeira e assim. O que já dificilmente acontece com artistas, sejam pintores, escritores ou músicos, quase todos assumindo o primeiro nome.

Imaginei então então um escritório com uma placa debaixo da janela com as seguintes indicações: "Dr. Correia Costa - Advogado". Confesso que senti logo uma espécie de falta de ar. sim, eu sou Correia Costa, sempre que preencho um documento escrevo esses dois nomes, mas não sou capaz de olhar para mim e ver alguém chamado "Correia Costa". E, confesso, não consigo entender o processo mental de alguém que, chamando-se João, Luís, Pedro, António ou Manuel, sendo esse nome a tradução directa da sua identidade individual, reconfigura essa identidade de modo a surgir metamorfoseada num Almeida Santos, Pires de Lima, Lobo Xavier, Pacheco Pereira, Ferreira Fernandes, Correia de Campos, Severiano Teixeira, Almeida Ribeiro ou Marinho Pinto. Juro que não consigo entender essa queda do nome próprio quando se assume um nome oficial.

Por exemplo, neste blogue apresento-me como José Ricardo Costa. Dois nomes próprios e um apelido. O apelido surge apenas para dar um conteúdo mais formal ao nome. Na minha escola não sou Costa mas, nestas coisas mais públicas, o apelido confere um valor mais institucional ao nome, o que fica sempre bem. Mas os meus nomes próprios estão em maioria e não consigo imaginar de outro modo. Quando digo que não consigo entender o processo mental do político, médico ou advogado que deixa cair o nome próprio, é no sentido de não conseguir fazer mesmo, honestamente, essa experiência mental. Eu não sou capaz de comer rins. Mas há pessoas que gostam e entendo perfeitamente que gostem, pois devem sentir o mesmo que eu sinto quando como uma coisa de que gosto. Mas não consigo fazer a experiência mental de gostar de rins, é impossível.

Com os nomes é a mesma coisa. Não consigo fazer a experiência mental mas consigo entender a lógica. Trata-se de uma institucionalização do nome, conferindo à pessoa uma maior dignidade e importância. José é mais formal do que Zé. José Pacheco Pereira é mais formal do que José. Só Pacheco Pereira é mais formal ainda do que José Pacheco Pereira. Chegados ao puro apelido através de um processo de depuração onomástica, a pessoa deixa de ser um mero indivíduo para se tornar numa instituição, o que permite alterar radicalmente o seu ethos. Não me venham com histórias: Angela Merkel e Srª Merkel não são a mesma pessoa, não têm o mesmo peso institucional. No caso de um advogado ou médico, apresentar-se ao mundo com um puro apelido será sempre uma forma de aumentar a sua credibilidade profissional graças a esse peso institucional, abstracto, o que não acontece com um artista uma vez que a sua individualidade tem um valor irredutível.

Mas o que será uma forte razão para muitos, para mim será sempre motivo de desconforto. Neste aspecto, serei sempre um romântico, anarquista, individualista e visceralmente anti-institucional. Sou filho do meu pai e da minha mãe, tenho uma identidade social, é verdade, mas quem eu verdadeiramente sou ninguém me tira.