10 junho, 2015

NEUSCHWANSTEIN

                                                                          Ettore Scola | Feios, Porcos e Maus [fotograma]


Se me perguntarem o que sou politicamente, direi apenas que sou visceralmente independente, que sou incapaz de estar ligado a qualquer seita partidária e que a minha relação com os políticos oscila entre o desprezo face a uns e indiferença céptica face a outros. Mas para não frustrar demasiado a mórbida curiosidade do meu interlocutor, sou também capaz de dizer que me sinto vagamente de esquerda. Explicar por que me sinto vagamente de esquerda é coisa para a qual não estou agora virado. Devo apenas dizer que defendo a ideia de que todas as pessoas, independentemente da sua classe social, inteligência ou grau de javardice estética, devem beneficiar de uma rigorosa igualdade de oportunidades e usufruírem universalmente de um conjunto de bens que lhes permita ter uma vida decente.

Mas a força da realidade obrigou-me, mais uma vez, a um exacerbado exercício introspectivo. Hoje, dia 10 de Junho, feriado nacional, tinha previsto uma manhã serena no recato do lar. Em vez disso, durante um tempo que para mim soou infinito, tive mesmo em frente ao meu prédio uma daquelas sessões de dança ou ginástica, não sei bem, feitas para pôr o mulherio aos saltos e a gesticular freneticamente enquanto ensurdecem com uma música que faz a Mónica Sintra parecer a Elisabeth Schwarzkopf e a mim aquela velhinha de quem fala Oliver Sacks no Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu, que não conseguia deixar de ouvir música dentro da sua cabeça. O mulherio aos saltos com cores fluorescentes é coisa que não me incomoda desde que não me aproxime da janela. Mas à música, uma distópica mistura das Valquírias a atacar o vale do Mekong com um animado interrogatório da Gestapo, tornou-se impossível escapar, desfazendo como terra seca o silêncio monástico do meu pobre refúgio.

Acho muito bem que o povo se divirta e seja muito feliz. Eu só queria que o povo fosse feliz longe de mim para que eu pudesse dar o menos possível pela sua felicidade. Juro, e assumo, sem orgulho nem preconceito, que há dias em que sonho com um palacete em Sintra, assim uma coisa escandalosamente aristocrática bem escondida no meio de uma arcádica e impenetrável vegetação, imune aos vestígios de um mundo cada vez mais ruidoso, com um mordomo que me protegesse dele e que fizesse chegar até mim as coisas de que eu precisasse sem ter que dar pela existência do mundo onde elas existem. Sim, serei vagamente de esquerda. Mas não me peçam muito mais do que isso.