27 junho, 2015

MUROS

Henri Cartier-Bresson | Muro de Berlim, 1962

Um órfão de guerra alemão foi dado para adopção ainda bebé. Ainda criança, contaram-lhe que era filho de uma alemã e de um soldado americano. Por causa disso, durante toda a vida construiu uma imaginária identidade americana. Porém, já adulto, encontra a mãe, que lhe conta a história verdadeira: o pai, afinal, não era um soldado americano mas um soldado russo que, em Maio de 1945, a violou em Berlim.

Diz ele, numa entrevista que vi há tempos, que em vinte breves minutos passou de uma imaginária identidade americana para uma imaginária identidade russa. Vinte minutos em que passa a tentar perceber os seus genes russos depois de anos a olhar para si próprio com genes americanos espalhados pelo corpo e pela alma. Diz ele que não foi fácil e acredito mesmo que não o tenha sido. Mas, sendo uma história triste, não deixa de ser também espantosa.

Se pensarmos no rígido e intransponível muro que, durante décadas, dividiu o mundo em duas partes opostas, muro que simbolicamente esteve na origem de uma longa guerra fria e outras bem quentes (Coreia, Vietname, Angola), é fascinante ver um homem passar tão rapidamente de uma imaginária identidade americana para uma imaginária  identidade russa. As identidades parecem reais (falar português, gostar de cozido à portuguesa, ficar lânguido a ouvir fado)  mas, no fundo, não passam de construções imaginárias construídas artificialmente. Quem sou eu? Serei mais português ou chinês do que eu próprio? Serei mais católico ou protestante do que eu próprio? Serei mais europeu ou asiático do que eu próprio? Ser português, católico ou europeu é uma identidade que me é imposta. Ser eu, pode ser o que eu quiser ser. Este homem começou por interiorizar uma identidade americana sem conhecer o seu pai americano e acabou a interiorizar uma identidade russa sem conhecer o seu pai russo. 

A identidade é importante mas vale o que vale. A nossa identidade social é uma como poderia ser outra qualquer. Bastaria ter nascido noutro país, noutra época, noutra cultura, noutro ambiente político ou ideológico. Se os muros exteriores, esses que dividem as raças, as culturas, as ideologias, as religiões, fossem tão facilmente derrubados como foi o muro na cabeça deste homem, certamente que o mundo estaria bem melhor.