17 junho, 2015

FALAR OUTRA VEZ

Carlos Afonso Dias

Quis o destino que eu fizesse hoje parte do júri de um exame oral de Inglês. Apesar de estar ali apenas de corpo presente, segui com atenção a prestação do único aluno examinado. Ora bem, eu conheço o aluno e as suas excelentes capacidades intelectuais, linguísticas e argumentativas. Não surpreende pois que tenha feito uma boa oral de Inglês. Ainda assim não deixou ser uma experiência estranha ouvi-lo falar. Um Inglês bom mas com falhas primárias, talvez devido ao nervosismo (do género "the man that told me" em vez de "the man who told me"). Boa fluência mas longe da sua fluência na língua materna. Boa argumentação, transmitindo o que pensa, mas a milhas da sua versatilidade argumentativa na língua em cujo peito mamou desde que nasceu.

Se eu tivesse acabado de chegar de outro planeta, tendo antes estudado  a fala e comunicação de um ser humano normal e todas as possibilidades sintácticas e semânticas de uma língua, iria pensar que aquele rapaz revela fortes limitações intelectuais, tendo a idade mental de uma criança. Eu próprio me sinto assim sempre que preciso de dar uns toques numa língua estrangeira, sentido a minha cabeça a balbuciar como se fosse a cabeça de uma criança de 8 anos a quem pedem para explicar uma coisa demasiado complexa para a sua idade e que só o consegue fazer recorrendo a uma linguagem primária, balbuciada, sofrida, hesitante, condicionada, denunciando mais o que não consegue dizer do que o que lhe é permitido dizer.

Onde é que eu pretendo chegar com isto? À importância da linguagem na estrutura mental e comunicacional de um ser humano normal. Pensar, discutir, argumentar sem uma estrutura linguística adequada é como pedir a um carpinteiro para fazer um roupeiro sem a ajuda de qualquer ferramenta, só com as mãos. As mãos podem ter toda aptidão para o fazer mas sem ferramentas nada feito. Ora, a um pensamento despido de uma consistente roupagem linguística acontece o mesmo. A pessoa pode ter boas capacidades mentais, abstracção, elasticidade, inteligência hipotética-dedutiva, todavia, sem tal instrumento não consegue raciocinar, organizar ideias, construir argumentos, em suma, pensar. Quer dizer, a pessoa pensa, as ideias estão lá e facilmente saem se expressas em Português. O que acontece deve ser qualquer coisa de parecido que acontece a um tipo embriagado. Antes de beber pensa e fala de uma maneira, depois de beber toda a sua estrutura mental e linguística é alterada, sendo incapaz de um raciocínio articulado, de construir argumentos ou revelar qualquer tipo de sofisticação retórica.

É por isso que uma das coisas de que mais gosto de fazer nas minhas aulas de Filosofia é ensinar a falar. Ensinar os alunos a dizer "verosímil", "irredutível", "frivolidade", "estultícia" "irreversível", "displicência", "dicotómico", "intrínseco", "altruísta", "falacioso" ou simples frases como "X é condição necessária mas não condição suficiente para Y", "X é passível de Y", "X é inerente a Y". Juro: mais do que ensinar o imperativo categórico kantiano, o que me dá verdadeiro prazer é ensinar um aluno a falar, ouvindo-o depois usar expressões ou palavras que foi ouvindo nas aulas. No fundo, trata-de de aprender a falar outra vez. Não o básico e meramente funcional que vem da infância mas uma aprendizagem que leve as pessoas a pensar e a falar como verdadeiros adultos.

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