12 junho, 2015

ERRAR E FALHAR

Lev Yashin no Mundial de 1966

O diálogo entre Carlos e Ega no final dos Maias, é um bom pretexto para me levar a fazer a seguinte pergunta: ter falhado na vida é o mesmo que ter errado? Não, são coisas diferentes. 

Dizer que 8x7 são 58 e Oslo a capital da Suécia, é errar. E quem errou foi responsável pelos erros. Ou porque sabia, mas enganou-se por distracção, confusão ou precipitação, ou, porque não sabia e, nesse caso, devia ter sido prudente e procurado saber. Mas imaginemos um médico que afirma “O leite ajuda a crescer”. Di-lo porque é verdade. Mas suponhamos que daqui a centenas de anos o ser humano sofre uma mutação genética que fará com que nos tornemos todos alérgicos ao leite. Sendo assim, a frase, objectivamente verdadeira, passou a ser objectivamente falsa. Significa isto que o médico errou ao dizer que o leite ajuda a crescer? Não, porque só a posteriori foi possível saber que era uma verdade provisória. Só as verdades matemáticas são verdades que se podem estabelecer a priori, as verdades factuais, pelo contrário, estão sempre sujeitas às incontroláveis contingências da realidade.

Ora, com a vida das pessoas passa-se o mesmo. A vida não pode ser estudada e entendida a priori como quem estuda a tabuada ou fórmulas químicas. Não existem manuais na vida que nos levem a dizer, a posteriori, que falhámos por não os conhecermos ou nos termos enganado. As vidas não podem ser projectadas e construídas como um engenheiro projecta e constrói uma ponte. Há regras objectivas para construir uma ponte e se esta cair é porque não foram respeitadas, enquanto uma vida que falha pode nada ter que ver com erros na aplicação de regras previamente conhecidas. A vida é mais parecida com o laboratório de um cientista onde se testam hipóteses sobre factos cujos resultados são desconhecidos, do que com uma lição de matemática ou de engenharia civil. Um cientista coloca a hipótese de que comer tomate evita certos tipos de cancro. É uma boa hipótese, é verosímil, vale a pena investir nela. Passados 5 anos de muito trabalho e muito dinheiro gasto, chega-se à conclusão de que a hipótese estava errada. Será que este erro pode ser comparado com as respostas erradas da tabuada? Não, porque estamos a jogar com factos empíricos que tanto podem ser verdadeiros como falsos, e nós não somos omniscientes para podermos estabelecer a priori o que é verdadeiro ou falso. Temos de arriscar ou ficamos paralisados. Mas, arriscar implica poder falhar. Só que falhar e errar são coisas diferentes. Somos responsáveis pelos erros mas não somos responsáveis pelas falhas. Falhas resultam de actos ou decisões que se pensava não serem falhas no momento em que se cometeram  e das quais não podemos ter consciência por muito que cismemos no que devemos fazer. Quando o jogador que marca o penalty atira para o lado direito porque o guarda-redes se atira quase sempre para o lado esquerdo, não errou, apesar de ter falhado o penalty. A decisão de chutar a bola para o lado direito foi racional, justificada, sensata. Só que enquanto podemos mandar nos nossos pensamentos e nas nossas decisões que, à partida, nos parecem razoáveis, nunca podemos mandar numa realidade que vai sempre alguns passos à nossa frente, alterando o sentido desses pensamentos e decisões. 


Dizer que se erra quando apenas se falhou é pretender que a vida seja um sistema matemático que pode ser aprendido mecanicamente para ser depois aplicado. Mas a vida não é assim. Por muito que cismemos sobre um problema, e cismemos bem, a falha é um elemento incontrolável e exterior a esse processo. Uma sociedade de pessoas que erraram só porque falharam não seria uma sociedade verdadeiramente humana. Apesar de falhar ser mau, temos o direito de falhar e de continuar sempre a correr para apanhar o "Americano" em vez de ficarmos parados a cismar através de um pensativo cigarro. Sermos intrinsecamente falíveis pode não dar grande consolo mas ajuda certamente a dormir melhor.