21 junho, 2015

DIEGO VELÁZQUEZ - CRISTO EM CASA DE MARTA E MARIA


O assunto deste quadro está no Evangelho segundo São Lucas (10). Reza assim:

Quando iam no caminho, Jesus entrou numa aldeia. E uma mulher, de nome Marta, recebeu-O em sua casa. Tinha ela uma irmã chamada Maria, a qual se sentara aos pés do Senhor e escutava a Sua palavra. Marta, porém, andava atarefada, com muitos serviços e, aproximando-se, disse: "Senhor, não se Te dá que a minha irmã me deixe só a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar". O Senhor, respondeu-lhe: "Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que lhe não será tirada".

A moral da história é muito bonita. Apesar de Marta trabalhar mais e se preocupar com a satisfação de uma necessidade primária, Cristo valoriza mais a atitude de Maria que fica quieta a ouvir o que ele tem para lhe dizer. Ora, enquanto a comida que ocupa Marta na cozinha, "vem e vai", o que Maria ouve, enquanto alimento espiritual, jamais lhe será tirado. Eis uma história que qualquer pai pode contar a um filho ou um professor aos seus alunos.

Mas a própria pintura é maravilhosa. Pelo jogo de luz, permitindo um belo efeito dramático através da descontinuidade entre a parte luminosa e a parte escura, mas sobretudo por aquela janela que separa a cozinha da sala. De facto, é de uma janela que se trata mas também pode ser muito mais do que uma janela: a separação entre o material e o espiritual que nos é trazida pela história, traduzida através de um fantástico efeito pictórico. Como?

Cristo e Maria chegam até nós através de uma janela que liga a cozinha à sala. Mas, se repararmos bem, aquela janela também pode ser uma moldura com uma pintura. Ou seja, em vez de termos ali um buraco que faz a ligação entre duas divisões de uma casa, temos uma pintura numa parede que marca a separação entre duas realidades completamente distintas: uma material, outra espiritual. Nós olhamos para o que está na cozinha, a mesa, os ovos, os peixes, os alhos, até para Marta e sua mãe, e tudo isso tem um efeito real. É o nosso mundo, a nossa realidade, o nosso quotidiano. Somos nós que ali estamos. Mas, entretanto, olhamos para o fundo e parece que entramos numa outra dimensão numa posição de absoluta descontinuidade com a nossa: uma pintura, uma tela. Numa pintura não há matéria, corpos, cheiros e sons domésticos, mas apenas formas e cores. Trata-se de um mundo desmaterializado, purificado, sublimado. De um lado, trabalha-se, do outro, pensa-se. De um lado, tratamos do corpo, do outro, do espírito. E que melhor via para explicar isto, senão transformar o próprio espaço físico (a sala) no tipo de realidade que ela representa?

A única verdadeira realidade desta imagem é a que está representada na cozinha. Depois, o que temos, é uma realidade ideal. Não a realidade que temos mas a realidade que deveríamos ter. A realidade que, caso fosse alcançada, jamais nos seria tirada. E está, ali, pendurada na parede, para nos interpelar. Nós vivemos na cozinha. Somos todos nós que ali estamos, naquele cozinha, que não é verdadeiramente uma cozinha mas a vida material que ocupa os nossos pensamentos e preocupações. Mas ali está aquele quadro na parede para nos fazer lembrar o Evangelho. O Evangelho também não é a nossa realidade. É um livro. Mas Velásquez não escrevia livros, pintava quadros. E o quadro que ele pinta dentro do próprio quadro, é uma expressão pictórica do que está escrito no Evangelho.


Se quisermos ir mais longe também podemos ir. Poderíamos ver nesta pintura o próprio sentido da pintura. Esta pintura que vemos na parede dentro da pintura que iremos ver na nossa parede, poderia ser sobre a própria essência espiritual e depurada da pintura, quando comparada com o mundo físico para o qual olhamos sem nos elevarmos.