05 junho, 2015

A SERPENTE



Paulo Nozolino

Há dias, uma faringite levou-me até à urgência do hospital. Chego ao guichet e a menina pergunta-me se é doença ou queda. A pragmática lógica do quotidiano é mesmo muito diferente da simbólica lógica da teologia de acordo com a qual a queda é uma doença antropológica que nos roubou a saúde original. 

Mas uma coisa há em comum entre a queda e a doença: a serpente. A repugnante e maliciosa serpente do jardim do Éden é a mesma serpente de Asclépio com que os médicos nos curam. As consequências é que são diferentes. Enquanto uma coisa chamada Azitromicina rapidamente faz o seu efeito na minha garganta, a radical mácula antropológica esperará eternamente pelo seu antibiótico.