28 junho, 2015

A PEQUENA HISTÓRIA

François Boucher | Madame de Pompadour, 1756

Comecei a gostar de História, ainda andava na primária, não nas aulas propriamente ditas mas com o programa de José Hermano Saraiva. Depois, foi a travessia do deserto para só voltar a gostar de novo, já no fim do liceu, graças ao professor José Carlos Alves, que aliava a sua competência científica ao mesmo tipo de entusiasmo, alegria e cusquice picante com que José Hermano Saraiva condimentava os seus programas.

Mais tarde, porém, na faculdade, comecei a ridicularizar esse modo mais romântico de olhar a história. Deixei crescer a barba, vesti-me como um revolucionário e passei a achar que a História tal como era apresentada por José Hermano Saraiva e o meu professor, não passava de um conjunto de vacuidades e futilidades científicas. A verdadeira História, a História científica, rigorosa, objectiva, marxista, a História que explica o passado com a mesma precisão racional com que um físico explica a natureza, não poderia de modo algum chafurdar na pequena história, nas paixões humanas, na psicologia dos indivíduos concretos feitos de carne e osso, no retrato pitoresco de acções cientificamente insignificantes e desprezíveis. A verdadeira História teria de estar então algures entre as estruturas, os gráficos, os ciclos económicos, as movimentações colectivas, como se o processo histórico dos seres humanos se assemelhasse a bandos de pássaros nos seus previsíveis e mecânicos processos migratórios.


Hoje, voltei a considerar que a verdadeira História é a que me foi mostrada por José Hermano Saraiva quando andava na escola primária e pelo meu professor do liceu. A História que me mostra um movimento cheio de acasos sem eira nem beira, imperceptíveis fluxos e refluxos dinamizados a partir do interior da alma humana, as paixões, as emoções, os sentimentos, os interesses, sobrepostos a qualquer tipo de inexorável lei. Estou cada vez mais convencido que compreendo melhor a história a ler Guerra e Paz ou As Benevolentes do que através de um apurado estudo racional sobre o passado que, de tão elevado, fica condenado a uma miopia que nos afasta da verdadeira realidade.